Rosas que Sangram
Chapter 1 — O Perfume Amargo das Rosas Roubadas
O vestido de noiva, um mar de seda e renda francesa, parecia zombar da minha alma em frangalhos.
Era para ser o dia mais feliz da minha vida. O dia em que me uniria a Rafael, o homem que eu amava desde a adolescência, o herdeiro de um império cafeeiro que se estendia pelas colinas verdejantes de Minas Gerais. Mas, no altar, olhando em seus olhos, vi o reflexo de uma verdade cruel: ele amava outra. E essa outra era minha irmã, Giovana.
O ar fresco da manhã mal disfarçava o cheiro doce e enjoativo das rosas que decoravam a capela da fazenda. Fazenda Esperança, lar de tantas memórias felizes, agora era palco da minha desgraça. Engoli em seco, tentando manter a compostura enquanto o padre, com sua voz grave e solene, pronunciava as palavras que selariam meu destino – um destino forjado na mentira e na traição.
Desde pequenas, Giovana e eu éramos inseparáveis. Crescemos correndo pelos campos de café, compartilhando segredos à luz da lua, sonhando com o futuro. Rafael sempre esteve presente em nossas vidas, um amigo de infância que, com o tempo, se tornou meu namorado, meu confidente, meu porto seguro. Ou, pelo menos, era o que eu pensava.
Lembro-me da primeira vez que o vi. Eu tinha apenas dez anos, e ele, doze. Ele me ajudou a subir em uma mangueira, e, do alto, me mostrou a vastidão da fazenda. Seus olhos castanhos brilhavam com a intensidade do sol da manhã, e, naquele momento, eu soube que ele seria meu para sempre. Uma ilusão infantil, eu sei. Mas uma ilusão que me alimentou por tantos anos.
Giovana sempre foi a mais bonita, a mais popular, a que atraía todos os olhares. Eu, por outro lado, sempre fui a mais reservada, a mais estudiosa, a que se contentava em viver à sombra da irmã. Mas, Rafael, ele me via. Ele apreciava minha inteligência, minha sensibilidade, minha lealdade. Era o que eu acreditava. E talvez, por um tempo, tenha sido verdade.
Os meses que antecederam o casamento foram um turbilhão de preparativos. Provas de vestido, degustações de bolo, escolha das flores. Giovana sempre presente, opinando, ajudando, sorrindo. Um sorriso que, agora, me parece carregado de segundas intenções.
Na noite anterior ao casamento, Giovana veio ao meu quarto. Estava linda, com um vestido de seda azul que realçava seus olhos claros. Conversamos por horas, relembramos momentos da infância, trocamos juras de amor eterno. Ela me abraçou forte, desejando-me toda a felicidade do mundo. Aquele abraço... sinto o peso dele até hoje.
No altar, enquanto o padre continuava a recitar as palavras sagradas, forcei um sorriso. Rafael apertou minha mão, e senti um arrepio percorrer meu corpo. Não era o arrepio do amor, da paixão, da felicidade. Era o arrepio do medo, da incerteza, da traição. Olhei para Giovana, sentada na primeira fila, e nossos olhos se encontraram. Ela desviou o olhar rapidamente, mas o suficiente para que eu visse a verdade estampada em seus olhos: ela o amava. E ele a amava também.
O nó na garganta apertava, sufocando-me. As palavras do padre ecoavam em meus ouvidos como um zumbido irritante. "Aceita Gisele..." A pergunta fatídica. O momento da decisão. O momento de expor a farsa ou de viver uma vida inteira na mentira. Olhei para Rafael, buscando uma resposta em seus olhos. Mas só encontrei culpa e hesitação.
Respirei fundo, reunindo toda a coragem que me restava. Abri a boca para proferir as palavras que mudariam minha vida para sempre. Mas, antes que pudesse fazê-lo, um grito agudo cortou o silêncio da capela.
Uma mulher, vestida de preto, com o rosto coberto por um véu, invadiu a igreja, brandindo um revólver. Apontou para Rafael e gritou: "Você vai pagar pelo que fez!"