Cacau e Correntes
Chapter 1 — O Sabor Amargo do Cacau
O vestido de noiva, um mar de seda e renda, parecia zombaria enquanto eu encarava meu reflexo. Hoje, Joana Bittencourt, 24 anos, herdeira da maior fazenda de cacau do sul da Bahia, se casaria com o homem que detestava. Um casamento arranjado, a peça final de um acordo comercial sórdido entre meu pai e o poderoso (e horrivelmente mais velho) Ricardo Viana.
Respirei fundo, tentando dominar a bile que subia pela garganta. O cheiro doce e enjoativo das flores no quarto me dava náuseas. Lá embaixo, o burburinho da festa crescia, uma sinfonia de sorrisos falsos e votos vazios. Eu era a protagonista involuntária daquele teatro grotesco, a moeda de troca em um jogo de poder que nunca quis jogar.
Desde pequena, cresci entre os cacaueiros, sentindo o cheiro da terra molhada e o sabor amargo dos grãos. Amava a fazenda, o trabalho árduo, a comunidade que dependia dela. Mas meu pai, consumido pela ambição, via apenas números e oportunidades. E Ricardo Viana, com seu sorriso predatório e olhos frios, representava a oportunidade perfeita para expandir seus negócios.
Ouvi batidas suaves na porta. “Joana? Sou eu, Isabela.” A voz da minha melhor amiga era um fio de esperança em meio ao caos. Isabela, com seus cabelos cor de fogo e espírito rebelde, sempre foi minha confidente, minha âncora.
Ela entrou no quarto, seus olhos verdes transmitindo uma mistura de tristeza e raiva. “Você não precisa fazer isso, Rafa. Foge! Eu te ajudo.” A proposta era tentadora, mas impossível. Fugir significaria abandonar minha família, minha fazenda, meu futuro. E, no fundo, uma parte de mim, a mais teimosa e imprudente, sentia uma estranha curiosidade sobre o que me aguardava naquele futuro sombrio. “Não posso, Isa. É tarde demais.”
Isabela segurou meu rosto entre as mãos, seus olhos fixos nos meus. “Não é tarde demais. Mas se você seguir com isso… prometa uma coisa: não se deixe consumir por ele. Lute, Joana. Lute pela sua felicidade.” Uma lágrima solitária escorreu pelo meu rosto. Prometi, em silêncio, que tentaria. Mas, enquanto a marcha nupcial começava a soar, um pensamento sombrio invadiu minha mente: e se a minha felicidade estivesse trancada a sete chaves, guardada por outro homem, um homem que eu nunca deveria desejar?