Cinzas do Passado, Brilhos do Presente
Chapter 1 — Cinzas do Passado, Brilhos do Presente
O buquê de lírios brancos esmagado contra o peito era a única coisa que me impedia de desmoronar ali mesmo, no meio do saguão do aeroporto de Guarulhos. Cinco anos. Cinco anos desde que tinha visto o sorriso de Bento pela última vez. Cinco anos desde que ele embarcou para Londres, levando consigo todos os meus sonhos e a promessa de um futuro que nunca existiu.
Agora, estava de volta. Não para me encontrar, mas para se casar. E eu, Aurora Sampaio, a ex-noiva abandonada, a designer de interiores bem-sucedida, a mulher que jurou nunca mais amar, estava ali, parada, assistindo a tudo acontecer.
Um flash de câmera. Risadas altas. O burburinho de vozes em inglês e português. Bento, mais alto e elegante do que me lembrava, surgiu no meu campo de visão. Ele sorria, um sorriso que antes era exclusivo para mim, agora compartilhado com uma loira alta e magra, vestida com um casaco de cashmere cor de creme. Cláudia. A noiva.
Eu deveria ter ido embora. Deveria ter pegado o próximo voo de volta para o Rio, para o meu apartamento com vista para o mar, para a segurança da minha rotina. Mas as minhas pernas pareciam ter criado raízes no chão. Precisava vê-lo. Precisava entender. Precisava saber se o fantasma do nosso passado ainda assombrava seus olhos.
Ele passou por mim, tão perto que pude sentir o perfume amadeirado que sempre usou. Nossos olhares se cruzaram por uma fração de segundo. Um brilho de surpresa, talvez até de culpa, cintilou em seus olhos antes de desaparecer, substituído por uma frieza calculada. Ele desviou o olhar e continuou andando, puxando Cláudia pela mão.
Senti um nó se formar na garganta. A humilhação queimava como ácido. Era oficial: eu era invisível. Uma memória esquecida. Uma história mal contada.
Respirei fundo, tentando controlar as lágrimas que ameaçavam cair. Precisava ser forte. Precisava mostrar a ele que eu tinha superado. Que a Aurora que ele conheceu não existia mais.
Endireitei os ombros e caminhei em direção à saída. O ar fresco da noite paulistana invadiu meus pulmões, tentando aliviar a dor que dilacerava meu peito. Peguei meu celular e disquei o número de Mariana, minha melhor amiga. Precisava de um ombro amigo, de uma garrafa de vinho e de uma noite de fofocas para esquecer a cena que acabara de presenciar.
A voz de Mariana atendeu no segundo toque. "Rafa, tudo bem? Conseguiu vê-lo?" A pergunta soou como uma facada.
"Sim, Mari. Eu vi." A voz embargada pela emoção.
"E...? Como ele está?" A ansiedade dela era palpável.
"Ele está... feliz. Vai se casar." Uma lágrima solitária escorreu pelo meu rosto.
Um silêncio sepulcral se instalou na linha. "Rafa, eu sinto muito. Quer que eu vá te buscar?"
"Não, Mari. Está tudo bem. Eu só... preciso de um tempo sozinha." Menti. Precisava desesperadamente da companhia dela, mas não queria ser vista naquele estado vulnerável.
"Ok. Mas qualquer coisa, me liga, tá? Eu te amo." Desliguei o telefone e entrei no primeiro táxi que passou. Precisava ir para algum lugar. Qualquer lugar. Menos para casa.
"Para onde, senhora?" O taxista perguntou, com a voz carregada de sotaque nordestino.
Olhei pela janela, as luzes da cidade borradas pelas lágrimas. De repente, uma placa chamou minha atenção: "Hotel Renaissance - Noivas & Eventos". Um frio percorreu minha espinha.
"Leve-me para aquele hotel", falei, apontando para o letreiro luminoso. A ironia da situação era quase insuportável. Mas, naquele momento, eu não conseguia pensar em nada mais. Precisava estar perto dele. Precisava saber o que ele estava sentindo. Precisava entender por que ele tinha me abandonado. E, de repente, uma ideia ousada e perigosa começou a tomar forma em minha mente. Uma ideia que poderia mudar tudo. Uma ideia que poderia me dar a minha tão sonhada segunda chance.
Ao chegar na recepção do hotel, perguntei, com a voz mais firme que consegui: "Gostaria de saber se o Sr. Bento Nascimento já fez o check-in."