Designer e o Magnata
Chapter 1 — O Perfume Amargo do Café
O envelope cor de marfim repousava sobre a mesa de mogno, o brasão da família Freitas gravado em dourado reluzindo sob a luz fraca da manhã. Aline respirou fundo, sentindo o aroma amargo do café fresco pairando no ar, uma ironia cruel para o dia que se anunciava.
Havia exatamente vinte e quatro horas, ela era apenas Aline Sampaio, uma jovem designer de interiores com um futuro promissor e um amor tranquilo nos braços de Rafael. Vinte e quatro horas atrás, a palavra “Freitas” significava apenas um sobrenome pomposo nas colunas sociais, algo distante e irrelevante para sua vida simples e feliz.
Agora, o nome Freitas era uma sentença. Uma ordem. Uma prisão dourada.
Com dedos hesitantes, Aline abriu o envelope. O papel, espesso e perfumado, continha poucas palavras, mas o peso delas era esmagador. “Comparecer à mansão Freitas, Rua das Acácias, 100, às 14h. Assunto: Casamento.” Não havia assinatura, apenas o mesmo brasão imponente que adornava o envelope.
O chão pareceu sumir sob seus pés. Casamento? Com quem? Por quê? Ela tinha um noivo, uma vida planejada, sonhos que jamais incluíam um Freitas. A raiva começou a borbulhar em seu peito, misturando-se ao medo paralisante. Como ousavam sequer sugerir tal absurdo?
Aline largou o envelope sobre a mesa, as mãos tremendo. Olhou ao redor do pequeno apartamento que dividia com Rafael, cada detalhe escolhido com carinho, cada canto impregnado de memórias felizes. Lembrou-se do pedido de casamento, feito sob a luz suave do luar na Praia do Arpoador, as palavras sussurradas, o anel de noivado delicado em seu dedo.
As lágrimas começaram a escorrer livremente pelo seu rosto. Como contar a Rafael? Como explicar que, de repente, seu futuro havia sido sequestrado por uma família rica e poderosa, dona de metade de São Paulo? A ideia de perdê-lo era insuportável, a dor cortando fundo em seu coração.
Respirou fundo, tentando controlar o pânico. Precisava pensar. Precisava de um plano. Não se deixaria manipular como uma marionete. Lutaria com todas as suas forças para proteger sua vida, seu amor, sua liberdade.
Decidiu ligar para sua melhor amiga, Mariana. Precisava de conselhos, de um ombro amigo, de alguém que a ajudasse a entender o que estava acontecendo. Mas, ao discar o número, lembrou-se da conversa que tiveram na semana passada. Mariana havia conseguido um estágio na Freitas Design, a empresa de decoração de interiores da família. Um estágio que ela tanto almejava.
A culpa a invadiu. Como envolver Mariana em seus problemas, arriscando o futuro da amiga? Não podia ser egoísta. Precisava resolver isso sozinha.
Olhou novamente para o envelope, o brasão dos Freitas parecendo zombar dela. A mansão na Rua das Acácias. O casamento. O futuro incerto. Tomou um gole amargo do café, a garganta seca e dolorida.
Com o coração pesado, Aline pegou o celular e discou o número de Rafael. Precisava contar a ele. Precisava da força dele. Mas, antes que ele pudesse sequer dizer alô, uma voz fria e autoritária soou do outro lado da linha. “Senhorita Sampaio, não se incomode. Rafael está conosco agora. E ele ficará bem… desde que você coopere.” A ligação foi abruptamente encerrada, deixando Aline em um silêncio ensurdecedor, o medo se transformando em puro terror.