Cinzas da Traição em Brasília
Chapter 1 — O Sabor Amargo das Jabuticabas
O cheiro de jasmim pairava no ar, doce e sufocante, quase me impedindo de respirar enquanto observava o caixão descer. Era o cheiro favorito dela, o mesmo que perfumava nosso pequeno apartamento em Copacabana. Agora, ele impregnava o cemitério, um lembrete cruel da sua ausência.
Meu nome é Larissa, e há exatamente um mês, minha vida desmoronou. Levada, brutalmente, pelas mãos de quem eu menos esperava.
As lágrimas embaçavam minha visão, distorcendo os rostos das pessoas ao meu redor. Tia Helena apertava minha mão, seus dedos enrugados e frios, um consolo que não alcançava a dor lancinante no meu peito. Gustavo, meu noivo… meu Gustavo, estava morto. E eu sabia, com uma certeza que me corroía por dentro, que aquilo não tinha sido um acidente.
A brisa suave do Rio de Janeiro balançava as folhas das árvores, sussurrando promessas vazias. Promessas que ele nunca mais poderia cumprir. Promessas de uma vida juntos, de filhos correndo na praia, de um futuro banhado pelo sol da manhã. Tudo roubado. Tudo destruído.
Lembro-me do dia em que nos conhecemos, há cinco anos. Eu trabalhava como garçonete em um café na Rua Dias Ferreira, tentando juntar dinheiro para pagar a faculdade de Direito. Ele entrou, com seus olhos cor de mel e um sorriso que derretia até o mais amargo dos corações. Pediu um café e um pedaço de bolo de jabuticaba, o meu preferido. Conversamos por horas, como se nos conhecêssemos há uma vida inteira. A partir daquele dia, o café da manhã no meu trabalho se tornou um ritual sagrado.
Ele era advogado, um dos mais promissores do escritório Araújo & Melo. Um homem bom, justo, que acreditava na lei e na justiça. Irônico, não? A justiça que ele tanto defendia não o protegeu.
A investigação policial apontava para um assalto seguido de morte. Um latrocínio, como dizem. Mas eu não acreditava. Gustavo não era o tipo de pessoa que reagiria a um assalto. Ele entregaria a carteira, o relógio, tudo. Ele prezava pela vida. E havia detalhes que a polícia ignorava, detalhes que gritavam em minha mente.
A forma como o carro foi encontrado, a hora do crime, as câmeras de segurança misteriosamente desligadas… Tudo apontava para algo maior, algo mais sórdido. Algo que Gustavo havia descoberto e que o silenciaram para sempre.
Tia Helena me puxou para mais perto, interrompendo meus pensamentos. "Larissa, minha querida, você precisa ser forte. Por você, por ele."
Forte? Como ser forte quando meu mundo havia se despedaçado? Como seguir em frente quando a única luz que iluminava meu caminho se apagou?
Olhei para a lápide, onde seu nome estava gravado em letras douradas: Gustavo Araújo Melo. Meu Gustavo. Meu amor. Minha vingança.
Naquela noite, deitada em minha cama, no apartamento vazio que antes compartilhávamos, refleti sobre o que faria. A polícia não faria nada. Eles já haviam encerrado o caso, satisfeitos com a versão do latrocínio. A justiça, a justiça que Gustavo tanto venerava, o havia abandonado.
Então, eu faria justiça com as minhas próprias mãos. Eu descobriria quem o matou, e faria com que pagassem. Cada lágrima derramada, cada noite em claro, cada pedaço do meu coração quebrado seria vingado.
Comecei minha investigação pelo escritório Araújo & Melo. Gustavo sempre falava do trabalho, dos casos que defendia, dos sócios com quem lidava. Ele admirava muito o Dr. Otávio Araújo, o fundador do escritório, um homem poderoso e influente. Mas também mencionava, com certa cautela, a rivalidade entre os sócios, as disputas por poder e dinheiro.
Consegui um emprego como secretária no escritório. Era o cargo mais baixo, o mais insignificante. Exatamente o que eu precisava. Passaria despercebida, observando, ouvindo, coletando informações. Como um rato no labirinto, buscando a saída… ou a entrada para o covil da serpente.
O primeiro dia foi um turbilhão de papéis, telefonemas e recados. A atmosfera no escritório era tensa, carregada de segredos e ambições. Cada sorriso parecia forçado, cada cumprimento, uma facada disfarçada.
Observei o Dr. Otávio Araújo de longe. Um homem elegante, de cabelos grisalhos e olhar penetrante. Ele emanava poder, uma aura de controle que intimidava a todos. Ele seria a chave? Ou apenas mais uma peça no quebra-cabeça?
Na hora do almoço, enquanto organizava os arquivos, encontrei uma pasta com o nome "Projeto Eldorado". O nome me soou familiar. Gustavo havia mencionado algo sobre um projeto importante, um negócio milionário que o escritório estava fechando. Um projeto que o deixava tenso, preocupado.
A curiosidade me consumiu. Abri a pasta e comecei a ler os documentos. Contratos, relatórios, pareceres… tudo em uma linguagem jurídica complexa e entediante. Mas, no meio daquele mar de informações, um nome chamou minha atenção: Ricardo Ventura.
Ricardo Ventura. O nome do maior empresário do ramo imobiliário do Rio de Janeiro. Um homem conhecido por sua ambição desmedida e seus métodos pouco ortodoxos. Um homem que, segundo os boatos, não hesitava em eliminar quem cruzasse seu caminho.
De repente, tudo fez sentido. O projeto Eldorado, a preocupação de Gustavo, a sua morte… Tudo estava conectado. Gustavo havia descoberto algo que Ricardo Ventura não queria que viesse à tona. E ele o silenciou para sempre.
A raiva ferveu em minhas veias, consumindo-me por dentro. Ricardo Ventura. Era ele. Ele era o responsável. Aquele homem pagaria pelo que fez. Eu faria com que ele se arrependesse de ter ousado tocar em Gustavo.
Naquela noite, voltei para casa com a pasta do Projeto Eldorado escondida na minha bolsa. Precisava analisar cada detalhe, cada linha, cada vírgula. Precisava encontrar a prova que incriminasse Ricardo Ventura. Precisava… vingança.
Enquanto vasculhava os documentos, encontrei uma anotação manuscrita, rabiscada à caneta no canto de uma página. Uma data, um horário e um endereço: "20/07, 22h, Cais do Porto".
20 de julho. Era hoje. O dia em que Ricardo Ventura se encontraria com alguém para finalizar o acordo do Projeto Eldorado. Era a minha chance. A chance de confrontá-lo, de descobrir a verdade, de obter a confissão que eu tanto precisava.
Sem hesitar, vesti minhas roupas mais escuras, escondi uma pequena faca na minha bota e segui para o Cais do Porto. O ar estava frio e úmido, o céu encoberto por nuvens densas. O cenário perfeito para o meu plano. Um plano que poderia me levar à justiça… ou à morte.
Cheguei ao Cais e me escondi atrás de um dos contêineres. Observei a movimentação, esperando por Ricardo Ventura. A cada minuto que passava, a tensão aumentava, o medo se intensificava. Mas a sede de vingança era mais forte. Muito mais forte.
De repente, um carro preto parou próximo ao local marcado. Dois homens desceram. Um deles era alto, forte, com um terno elegante e um olhar frio e calculista. Ricardo Ventura. O outro era um homem baixo, magro, com uma expressão nervosa e um chapéu que escondia o rosto.
Eles começaram a conversar em voz baixa, gesticulando e apontando para os documentos que Ricardo Ventura segurava em suas mãos. Era a minha hora. A hora de confrontá-lo. A hora de obter a verdade. A hora de vingar a morte de Gustavo.
Respirei fundo, preparei-me para sair do meu esconderijo e…
A sirene de uma polícia ecoou no ar, cortando o silêncio da noite. Luzes fortes iluminaram o Cais, revelando dezenas de policiais armados cercando o local. Ricardo Ventura e o homem de chapéu se entreolharam, em pânico. O que estava acontecendo? Como a polícia sabia do encontro?
Antes que eu pudesse entender o que se passava, senti uma mão forte me puxar para trás, tapando minha boca com um pano. Uma voz sussurrou no meu ouvido: "Não faça barulho. Ou você morre."