Reencontro no Aeroporto do Galeão
Chapter 1 — O Perfume Amargo do Reencontro
O som do champagne estourando ecoou pelo salão, mas para Mônica, era como o estampido de um tiro. Cinco anos. Cinco anos desde que ela vira Matheus pela última vez, e agora, ali estava ele, radiante, noivo... da sua irmã.
O Rio de Janeiro fervilhava em dezembro, mas Mônica sentia um frio glacial percorrer cada fibra do seu corpo. A festa de noivado de Nayara e Matheus era o evento do ano na alta sociedade carioca, e ela, a irmã mais velha que fugira para Londres com o coração em pedaços, fora obrigada a retornar. “Obrigada” era uma palavra forte. “Arrastada” talvez fosse mais preciso. Sua mãe, sempre dramática, insistira que sua ausência seria um golpe fatal para a imagem da família.
Respirou fundo, tentando controlar a tremedeira nas mãos. O vestido vermelho de seda, escolhido a dedo para a ocasião, parecia pesado demais, sufocante. Sabia que todos a observavam. A filha pródiga que ousara desafiar as expectativas, trocando o conforto da Zona Sul pela frieza calculista da capital inglesa.
Avistou a mãe, Glória, acenando fervorosamente do outro lado do salão. Um sorriso amarelo se formou nos lábios de Mônica enquanto se movia em direção a ela. Glória, impecável em um vestido azul Klein, a abraçou com força, sussurrando em seu ouvido: "Você está linda, querida. Mas, por favor, comporte-se. Não estrague a felicidade da sua irmã."
Aquelas palavras, como agulhas, fincaram-se em seu coração. Estragar a felicidade de Nayara? Como se ela fosse capaz de tal crueldade. A verdade era que a felicidade de Nayara já fora destruída, cinco anos atrás, e a culpada, aos olhos de todos, era ela, Mônica.
O reencontro com Nayara foi agridoce. Um abraço apertado, seguido de um silêncio constrangedor. Nos olhos da irmã, Mônica viu uma mistura de alívio e ressentimento. Nayara estava deslumbrante em seu vestido branco, a personificação da noiva perfeita. Mas, por trás do sorriso radiante, Mônica detectou uma sombra de insegurança. Uma insegurança que ela conhecia bem.
Matheus se aproximou, o sorriso perfeito estampado no rosto. Seus olhos encontraram os de Mônica por um instante que pareceu uma eternidade. Havia surpresa neles, talvez até um vestígio de... arrependimento? Impossível. Matheus sempre fora bom em esconder seus verdadeiros sentimentos.
"Mônica, que bom que você veio!", ele disse, a voz carregada de formalidade. Estendeu a mão e Mônica a apertou, sentindo um choque percorrer seu corpo. Aquele toque ainda a afetava, mesmo depois de tanto tempo. "Londres te fez bem. Você está radiante."
"Obrigada, Matheus", ela respondeu, tentando manter a voz firme. "Vocês formam um belo casal."
Ele sorriu, mas o sorriso não atingiu seus olhos. "Estamos muito felizes", respondeu, olhando para Nayara. "Não é, meu amor?"
Nayara assentiu, apertando o braço de Matheus contra o seu. "Muito felizes", repetiu, o tom um pouco forçado.
A noite se arrastou em meio a cumprimentos protocolares, conversas superficiais e o brilho constante do flash das câmeras. Mônica se sentia como uma peça deslocada em um quebra-cabeça complexo, tentando desesperadamente encontrar seu lugar.
Mais tarde, enquanto observava Matheus e Nayara dançando a valsa dos noivos, Mônica sentiu um nó se formar em sua garganta. As lembranças a invadiram como uma avalanche. Os beijos roubados sob a luz do luar, as promessas sussurradas ao pé do ouvido, os sonhos compartilhados de um futuro a dois… Tudo desmoronou em uma única noite fatídica.
De repente, sentiu uma mão tocar seu ombro. Virou-se e se deparou com um homem elegante, de cabelos grisalhos e olhos penetrantes. Era Ricardo, o pai de Matheus. Ele sempre a admirara, mesmo quando todos a condenavam.
"Mônica, minha querida", ele disse, a voz suave. "Preciso conversar com você. É sobre Matheus... e sobre o passado."