O Sabor Metálico do Medo
Chapter 1 — O Sabor Metálico do Medo
O gelo na minha veia era mais frio que o cano da arma pressionado contra a minha têmpora. O aroma doce e enjoativo de gardênias, a marca registrada de Dante Rocha, pairava no ar, ironicamente contrastando com a minha iminente morte. Eu sabia que estava fodida no momento em que pisei naquele cassino. Deveria ter escutado a minha intuição, deveria ter fugido enquanto podia.
Meu nome é Mariana Rossi, e até ontem, eu era apenas uma contadora esforçada, tentando sobreviver na vibrante, porém implacável, cidade de São Paulo. Agora, estou no epicentro do império da máfia Rocha, prestes a pagar o preço por uma dívida que não é minha.
Flashbacks da noite anterior rodavam em minha mente como um filme mal editado. Meu irmão, Marco, com sua mania de grandeza e vício em jogos de azar, me ligou em pânico, a voz embargada pelo desespero. Ele havia contraído uma dívida colossal com a família Rocha, uma quantia que jamais conseguiria pagar. E, como sempre, eu era a única que ele podia recorrer.
Eu sabia dos riscos. Sabia da reputação brutal de Dante Rocha. Mas Marco era tudo que eu tinha. Nossos pais morreram quando éramos jovens, e eu prometi protegê-lo, mesmo que isso significasse me sacrificar. Então, tomei a decisão mais estúpida da minha vida: fui até o cassino clandestino de Rocha, determinada a negociar.
A atmosfera era densa, carregada de fumaça de charuto e o cheiro acre do medo. Homens de terno impecável e rostos impenetráveis circulavam pelo salão, seus olhares frios avaliando cada movimento. O som das cartas sendo embaralhadas, o tilintar dos copos de cristal e as risadas forçadas criavam uma cacofonia perturbadora.
Finalmente, fui levada à presença dele. Dante Rocha. A mera menção de seu nome era suficiente para gelar o sangue nas veias de qualquer um. Ele estava sentado em uma poltrona de couro, com um copo de whisky na mão, observando-me com olhos escuros e penetrantes. A beleza fria e calculista dele era inegável, mas era uma beleza que emanava perigo.
"Mariana Rossi," ele disse, a voz um veludo rouco. "Irmã de Marco. Interessante."
Tentei manter a compostura, apesar do pânico crescente. "Senhor Rocha, meu irmão reconhece a dívida e está disposto a pagá-la. Precisamos apenas de mais tempo."
Ele sorriu, um sorriso que não alcançava seus olhos. "Tempo é um luxo que nem todos podem se dar, senhorita Rossi. Seu irmão já teve tempo suficiente. Agora, a dívida dele é sua."
"Eu não tenho essa quantia!" exclamei, sentindo as lágrimas queimarem meus olhos.
"Talvez não em dinheiro," ele respondeu, inclinando a cabeça para o lado. "Mas todos têm algo de valor a oferecer."
Foi aí que ele me fez a proposta. Uma proposta que me deixaria marcada para sempre. Trabalhar para ele. Por um ano. Em troca, a dívida de Marco seria perdoada.
Eu hesitei. Trabalhar para Dante Rocha significava entrar em um mundo de violência, corrupção e perigo constante. Significava perder minha alma. Mas a alternativa era ver meu irmão morto. E eu não podia permitir que isso acontecesse.
"Aceito," eu disse, a voz tremendo. "Eu trabalharei para você."
Ele sorriu novamente, desta vez um sorriso genuíno, e senti um arrepio percorrer minha espinha. "Ótimo. Começaremos imediatamente." Ele estalou os dedos, e dois homens me agarraram pelos braços. "Você tem uma missão importante." Eles me arrastaram pelos corredores labirínticos do cassino, até chegarmos a uma sala escura e isolada. Lá, em cima de uma mesa, repousava uma caixa de veludo preta.
"Entregue esta caixa a Alessandro Vitale," Dante disse, a voz ecoando na sala. "E diga a ele que é um presente meu." Meus captores me empurraram para dentro de um carro preto com vidros fumês, e partimos em alta velocidade pelas ruas de São Paulo. Eu não fazia ideia do que continha a caixa, ou quem era Alessandro Vitale. Mas sabia, no fundo do meu coração, que estava me metendo em algo muito, muito perigoso.
Agora, aqui estou eu, com a arma pressionada contra a minha têmpora, percebendo que entregar aquela caixa foi um erro catastrófico. A voz de Dante ecoa em meus ouvidos: "Sempre existem consequências, Mariana."
A porta se abre com um estrondo, e uma figura sombria entra na sala. Não é Dante. É alguém muito pior. Alessandro Vitale.