Nó de Cetim e Cinzas
Chapter 1 — O Perfume Amargo do Café Frio
O silêncio na sala era tão denso que Olívia podia jurar que o sentia vibrar em seus tímpanos. O aroma forte de café, agora frio e amargo, pairava no ar, testemunha muda das horas que ela havia passado ali, sentada, aguardando o veredito que mudaria sua vida para sempre.
Seu pai, Antônio, um homem de poucas palavras e muitos negócios, finalmente pigarreou, quebrando o silêncio com a mesma facilidade com que quebrava promessas. “Olívia, como sabe, a situação da empresa não é das melhores.” A frase, proferida com um tom de falsa lamentação, era o prelúdio para o desastre que ela tanto temia. A falência da Madeireira Ferreira pairava sobre a família como uma espada de Dâmocles, e Olívia sabia que ela seria o sacrifício.
“E qual seria a solução, pai? Declarar falência? Vender o pouco que restou?” Olívia perguntou, a voz tremendo apesar de seus esforços para manter a compostura. Ela sabia a resposta, mas precisava ouvi-la, precisava encarar o monstro de frente.
Antônio evitou seu olhar, encarando a lareira apagada como se as cinzas pudessem lhe dar a resposta. “Há outra opção. Uma que, embora não seja ideal, pode salvar a empresa e garantir o futuro da nossa família.”
Olívia sentiu um arrepio percorrer sua espinha. A palavra “futuro” soava como uma sentença de morte. “Qual opção, pai?”
“Um casamento. Um acordo com a família Reis.” Antônio finalmente disse, a voz baixa e hesitante.
Olívia sentiu o chão sumir sob seus pés. Casamento? Aquela palavra, outrora carregada de sonhos e esperanças, agora soava como uma maldição. Ela tinha vinte e dois anos, uma vida inteira pela frente, e a perspectiva de um futuro brilhante como designer de interiores. Tudo isso estava sendo trocado pela salvação de uma empresa que seu pai administrou mal.
“Casamento? Está me dizendo que quer me vender para os Reis?” A indignação borbulhava em sua voz, misturada com uma dor lancinante. Ela sempre soube que seu pai priorizava os negócios acima de tudo, mas nunca imaginou que ele seria capaz de chegar a esse ponto.
“Não seja dramática, Olívia. Não é como se estivesse se casando com um monstro. Luciano Reis é um bom partido, um homem de negócios respeitado. E este casamento uniria nossas empresas, nos dando a estabilidade que precisamos.” Antônio respondeu, tentando minimizar a situação.
“Estabilidade? E a minha felicidade, pai? O que acontece com os meus sonhos?” As lágrimas começaram a escorrer pelo seu rosto, manchando a maquiagem. Ela se sentia impotente, presa em uma teia de obrigações e expectativas.
“Você vai se adaptar, Olívia. Todas as mulheres da nossa família fizeram sacrifícios pelo bem-estar de todos. Você não é diferente.” Antônio respondeu friamente, sem demonstrar nenhuma compaixão.
A discussão se arrastou por horas, com Olívia implorando, argumentando, tentando fazê-lo mudar de ideia. Mas Antônio se manteve irredutível. O acordo já estava selado, os termos definidos. Ela seria a noiva, a moeda de troca para salvar a Madeireira Ferreira.
No dia seguinte, Olívia foi apresentada a Luciano Reis. Um homem alto, de olhos frios e um sorriso que não alcançava o olhar. Ele era a personificação do poder e da riqueza, e a olhava como se ela fosse apenas mais um item em seu portfólio de investimentos. Durante o jantar formal, Luciano Reis demonstrou ser um homem calculista, observando-a como se ela fosse uma peça de xadrez, avaliando o seu valor estratégico. Ele fez perguntas sobre a empresa de seu pai, demonstrou um conhecimento profundo sobre o mercado madeireiro, mas não fez nenhuma pergunta sobre Olívia.
Ao final do jantar, Luciano a levou para o jardim. Sob a luz fraca da lua, ele parou e se virou para ela. “Nosso casamento será benéfico para ambos, Olívia. Para você, a segurança financeira e o status social. Para mim, a Madeira Ferreira e uma esposa que sabe o seu lugar.”
Olívia sentiu um nó na garganta. Aquelas palavras eram como punhais, cravados em seu coração. Mas ela ergueu o queixo e o encarou nos olhos. “Não se engane, Luciano. Eu posso ser uma esposa de conveniência, mas nunca serei submissa. E se você pensa que terá uma vida fácil ao meu lado, está muito enganado.”
Luciano sorriu, um sorriso frio e calculista. “Veremos, Olívia. Veremos.” Ele se aproximou dela, inclinando-se para sussurrar em seu ouvido: “Mas antes de tudo, você deve saber que, no dia do nosso casamento, um segredo obscuro sobre sua família virá à tona. Um segredo que pode destruir tudo o que você conhece.”