Sangue e Seda na Rocinha

Chapter 1 — O Silêncio das Orquídeas Roxas

O gosto metálico do sangue invadiu minha boca, misturando-se com o sal das lágrimas que escorriam sem permissão. A visão embaçada me mostrava o teto em estuque do salão de festas, ornamentado com lustres de cristal que agora pareciam ameaçadores. Eu nunca imaginei que meu casamento terminaria assim, banhado em sangue e traição.

Meu nome é Lívia Cunha. Ou melhor, era. Filha caçula de um dos maiores empresários de São Paulo, sempre vivi em uma bolha de privilégios. Mas essa bolha estourou na noite em que cruzei o olhar de Giovanni Vianna, um homem tão charmoso quanto perigoso. Ele era o herdeiro de uma família com laços profundos com a máfia italiana, um mundo sombrio que sempre me fascinou e aterrorizou.

Nosso romance foi um turbilhão de paixão e segredos. Giovanni me apresentou a um mundo de luxo extravagante, festas exclusivas e um poder que eu nunca havia imaginado. Ele me cortejou com diamantes, viagens para a Europa e promessas de uma vida sem limites. Era difícil resistir ao seu charme magnético, mesmo sabendo dos perigos que o cercavam.

Meus pais sempre foram contra o nosso relacionamento. Eles viam em Giovanni a personificação do mal, um homem que traria desgraça para nossa família. Mas eu estava apaixonada, cega pela intensidade do nosso amor. Ignorei os avisos, os conselhos dos meus amigos e me entreguei de corpo e alma a esse homem.

Decidimos nos casar em uma cerimônia luxuosa em um dos hotéis mais sofisticados de São Paulo. A festa estava impecável, com música, dança e os melhores champagnes. Meus pais, relutantes, acabaram aceitando Giovanni e até pareciam felizes. Pelo menos, era o que eu acreditava.

Durante a valsa, senti um arrepio percorrer minha espinha. O olhar de Giovanni estava distante, frio. Ele sussurrou em meu ouvido: "Perdão, Lívia. Mas isso precisava acontecer". Antes que eu pudesse reagir, um estrondo ecoou pelo salão. Um tiro. A dor lancinante no meu ombro me fez cambalear. Olhei para Giovanni, seus olhos marejados de lágrimas. Ele não era o autor do disparo, mas sabia que ele estava por vir.

Pânico se instalou entre os convidados. Gritos, correria, o cheiro forte da pólvora. Em meio ao caos, vi meu pai caído no chão, uma mancha vermelha se espalhando em seu terno branco. Minha mãe gritava desesperadamente, tentando estancar o sangue. Giovanni me puxou para um canto, protegendo-me dos disparos.

"Você precisa fugir, Lívia. Eles estão atrás de você", ele disse, com a voz embargada. "Eles quem? Por que estão atrás de mim?", perguntei, confusa e aterrorizada. "Não há tempo para explicar. Confie em mim. Vá para a casa de praia em Angra dos Reis. Fique lá até eu entrar em contato".

Ele me entregou um revólver e um envelope com dinheiro e um bilhete de identidade falso. "Use isso. Não confie em ninguém. E, acima de tudo, não tente me procurar". Ele me beijou apaixonadamente, um beijo de despedida. Em seguida, me empurrou para fora do salão, em direção a uma saída de emergência.

Corri o mais rápido que pude, sem olhar para trás. O som dos tiros e dos gritos ecoava em meus ouvidos. Cheguei ao estacionamento e entrei no carro que Giovanni havia deixado preparado. Liguei o motor e pisei fundo, deixando para trás o inferno que se instalara em minha vida.

Dirigi a noite inteira, sem parar. As lágrimas turvavam minha visão, mas eu não podia me dar ao luxo de parar. Precisava chegar a Angra dos Reis, precisava me esconder. Precisava entender o que estava acontecendo.

Ao amanhecer, cheguei à casa de praia. Era um refúgio isolado, com vista para o mar azul turquesa. Entrei na casa, tranquei as portas e me joguei na cama, exausta e desesperada. Adormeci em meio às lágrimas, sonhando com o dia em que tudo voltaria a ser como antes.

Acordei com o som de passos no andar de baixo. Meu coração disparou. Peguei o revólver que Giovanni havia me dado e me escondi atrás da porta do quarto. A cada passo, a cada rangido da madeira, meu corpo tremia mais. Quem estaria ali? Seriam os homens que atiraram em meu pai? Seria Giovanni? Ou seria alguém ainda mais perigoso?

A porta se abriu lentamente. Uma figura alta e sombria surgiu no quarto. Seus olhos, frios e calculistas, me encararam. Ele sorriu, um sorriso cruel e sádico. "Olá, Lívia. Estava te esperando". Ele era um estranho, mas havia algo familiar em seu rosto. Algo que me causou um arrepio na espinha. "Quem é você? O que você quer?", perguntei, com a voz trêmula. "Meu nome é Henrique Vianna. E eu sou o irmão mais velho de Giovanni. Vim te fazer uma proposta que você não poderá recusar". Ele fez uma pausa, saboreando o meu medo. "Você se casará comigo, Lívia. Ou todos que você ama morrerão."