Entre o Desejo e a Culpa
Chapter 1 — O Sabor Amargo do Brigadeiro
O gosto doce do brigadeiro grudava no céu da boca, uma ironia cruel enquanto as palavras de meu pai ecoavam na minha cabeça como trovões distantes. Casamento. Arranged marriage. Com Rafael Duarte, herdeiro do império Duarte. E eu, Flávia Sampaio, com vinte e dois anos e um diploma de design de moda amassado na gaveta, vendida como gado em uma feira.
Respirei fundo, tentando controlar a tremedeira que ameaçava dominar meu corpo. A festa de noivado aconteceria em duas semanas. Duas semanas para planejar uma fuga, para implorar por um milagre, para… qualquer coisa que me tirasse desse pesadelo dourado. A mansão dos Duarte, com seus jardins impecáveis e lustres cintilantes, sempre me pareceu mais uma jaula do que um lar. E Rafael… Rafael era a personificação dessa jaula: bonito, charmoso e terrivelmente… intocável.
Nunca fui uma garota de muitos luxos. Cresci em um bairro tranquilo de São Paulo, com o cheiro de café fresco da minha avó e as broncas carinhosas do meu pai. Sonhava em abrir meu próprio ateliê, criar roupas que contassem histórias, dar vida a tecidos esquecidos. Mas os sonhos, pelo visto, eram um artigo de luxo que eu não podia mais me permitir. A empresa da minha família estava à beira da falência, afogada em dívidas que nem mesmo a receita de brigadeiro da vovó conseguiria adoçar. E Rafael Duarte era a nossa única salvação.
Olhei para o vestido de seda que minha mãe havia escolhido para mim. Um tom de rosa pálido, delicado e romântico. Quase uma fantasia. Eu me sentia como uma atriz ensaiando um papel que nunca quis interpretar. A noiva perfeita. A esposa submissa. A salvadora da família. Engoli em seco, sentindo o nó na garganta apertar. Precisava encontrar uma maneira de reverter essa situação. Precisava falar com Rafael.
Encontrei-o no jardim, perto da fonte, com o celular grudado na orelha e uma expressão tensa no rosto. Ele vestia um terno impecável, como se estivesse sempre pronto para fechar um negócio milionário. A luz do sol refletia em seus cabelos castanhos, realçando as linhas marcantes de seu rosto. Era inegavelmente bonito, mas seus olhos transmitiam uma frieza que me arrepiava a espinha. Hesitei por um momento, mas respirei fundo e me aproximei. “Rafael?”, chamei, tentando controlar o tom da voz.
Ele se virou, desligando o celular com um movimento brusco. Seus olhos encontraram os meus, avaliando-me de cima a baixo. Senti minhas bochechas corarem sob seu olhar intenso. “Flávia. O que deseja?”, perguntou, com uma voz que soava mais como uma ordem do que um convite.
“Precisamos conversar”, respondi, tentando manter a postura. “Sobre o casamento.”
Um sorriso frio brincou em seus lábios. “Eu imagino. Meu pai já lhe contou sobre os termos do acordo, não é? A garantia da estabilidade financeira de sua família em troca da sua… companhia.”
A palavra “companhia” soou como uma ofensa. Senti a raiva borbulhar dentro de mim. “Não sou uma moeda de troca”, retruquei, elevando o tom de voz. “Tenho sonhos, ambições, uma vida que não estou disposta a sacrificar por um acordo comercial.”
Rafael se aproximou, diminuindo a distância entre nós. Sua presença era intimidante, opressora. “Sonhos? Ambições? Flávia, seja realista. Você está em uma situação desesperadora. Este casamento é a única saída para você e sua família. Aceite seu destino e torne as coisas mais fáceis para nós dois.”
“Não posso”, sussurrei, sentindo as lágrimas ameaçarem cair. “Não posso me casar com alguém que não amo.”
Rafael soltou uma risada amarga. “Amor? Que palavra antiquada. Amor não paga as contas, Flávia. Amor não salva empresas da falência. O que posso oferecer é segurança, estabilidade e… uma vida de luxo que você jamais imaginou. Pense bem. É uma proposta irrecusável.” Ele se virou para sair, mas antes que pudesse se afastar, eu o detive. “E se eu tiver uma proposta melhor?”, desafiei, sentindo a adrenalina correr em minhas veias. Ele parou, arqueando uma sobrancelha em sinal de curiosidade. “O que você tem em mente, Flávia?”, perguntou, com um brilho perigoso nos olhos.
“Um acordo”, respondi, com a voz firme. “Um acordo que beneficie nós dois. Mas sem casamento.”
Rafael me encarou por um longo momento, seus olhos escuros indecifráveis. Finalmente, um sorriso lento e predador se formou em seus lábios. “Estou ouvindo…”, disse ele, e antes que eu pudesse sequer começar a explicar minha proposta, uma voz feminina e estridente interrompeu nosso diálogo, vinda da varanda da casa.
“Rafael, querido! Onde você se meteu? Sua noiva está te procurando por toda parte! Ah, Flávia, querida, você também está aí! Que bom! Rafael, preciso te mostrar os modelos de bolo que escolhi! São simplesmente divinos!” Era Gisela Duarte, a mãe de Rafael, uma mulher elegante e autoritária, que parecia ter o controle de cada detalhe daquele circo. Rafael suspirou, revirando os olhos discretamente. “Já estou indo, mãe”, respondeu, com um tom de voz forçado. Ele se virou para mim novamente, seus olhos faiscando uma promessa sombria. “Nossa conversa não terminou, Flávia. Muito pelo contrário. Acho que está apenas começando.” E com um sorriso enigmático, ele me deixou plantada no jardim, sob o peso do olhar inquisidor de sua mãe, enquanto eu me perguntava se tinha acabado de selar meu destino ou apenas adiado o inevitável.