Cicatrizes de Diamante
Chapter 1 — Cicatrizes de Diamante
O som do salto agulha ecoou pela boate como um tiro. Cada passo de Tainá era uma declaração de guerra, cada brilho em seu vestido vermelho, uma afronta. Cinco anos. Cinco anos desde que tinha pisado naquele inferno pela última vez, cinco anos desde que sua vida tinha se estilhaçado em mil pedaços, espalhados pelo chão daquele lugar imundo. Agora, ela estava de volta, e a sede de vingança ardia em suas veias como um veneno.
A boate ‘Paraíso Perdido’ era um antro de pecados, um lugar onde a riqueza dançava com a perdição sob as luzes estroboscópicas. Era o reino de Guilherme, o homem que havia destruído sua família, o homem que ela amara mais que a própria vida. O cheiro adocicado de álcool barato e feromônios pairava no ar, nauseante, mas Tainá respirou fundo, forçando-se a manter a compostura. Aquela noite, ela não era mais a garota ingênua que havia se apaixonado perdidamente. Ela era uma mulher transformada pelo ódio, uma predadora à espreita.
Seus olhos varreram o salão lotado, buscando o rosto familiar entre a multidão. Guilherme sempre se destacava, uma figura imponente cercada por bajuladores e mulheres deslumbradas. Não demorou muito para encontrá-lo, sentado em um camarote VIP, um copo de whisky em uma mão e uma loira oxigenada pendurada em seu braço. O sorriso presunçoso, o olhar predador… Nada havia mudado. O ódio de Tainá se intensificou, transformando-se em uma força quase palpável.
Ela caminhou em direção ao camarote, abrindo caminho entre a multidão com a determinação de um tanque de guerra. As pessoas se afastavam, sentindo a aura de perigo que emanava dela. Tainá não se importava. Ela só tinha olhos para Guilherme, o homem que a havia traído, o homem que a havia abandonado à própria sorte.
Quando finalmente chegou ao camarote, parou em frente a ele, o silêncio se espalhando ao seu redor como uma onda. Guilherme ergueu os olhos, surpreso, e por um instante, Tainá viu um lampejo de reconhecimento em seu rosto. Um reconhecimento tingido de culpa.
“Tainá”, ele disse, a voz rouca, carregada de surpresa. “O que você está fazendo aqui?”
Ela sorriu, um sorriso frio e calculista que não alcançava seus olhos. “Voltei para pegar o que é meu, Guilherme. E vou começar com a sua vida.”
Guilherme riu, um som gutural que ecoou pelo camarote. “Você não seria capaz, Tainá. Você sempre foi fraca demais.”
“Você me subestima, Guilherme. A dor me fortaleceu. A traição me ensinou a ser cruel.” Ela se inclinou sobre a mesa, aproximando o rosto do dele. “Você vai se arrepender de ter me cruzado, Guilherme. Eu vou destruir tudo o que você ama, tudo o que você construiu. Vou te deixar sem nada, exatamente como você fez comigo.”
A loira oxigenada tentou intervir, mas Tainá a ignorou, mantendo o olhar fixo em Guilherme. Ele parecia pálido, surpreso com a intensidade de sua raiva. Pela primeira vez em cinco anos, Tainá viu medo em seus olhos. E aquele medo a alimentou, dando-lhe a certeza de que estava no caminho certo.
“Você está blefando, Tainá. Você não tem coragem de fazer nada disso.” Guilherme tentou manter a pose, mas sua voz tremia levemente.
Tainá pegou uma taça de champanhe da mesa e a ergueu em um brinde sarcástico. “Veremos, Guilherme. Veremos quem blefa e quem cumpre suas promessas.” Ela virou a taça de champanhe sobre a cabeça dele, observando o líquido escorrer por seu rosto com satisfação. “A noite está apenas começando.”
Guilherme se levantou abruptamente, furioso, e a agarrou pelo braço. “Você vai se arrepender disso, sua vadia.”
Antes que ele pudesse fazer qualquer coisa, um homem alto e musculoso surgiu do meio da multidão e o empurrou para longe de Tainá. O homem era desconhecido, mas seus olhos transmitiam uma intensidade que a assustou.
“Deixe-a em paz, Guilherme”, o homem disse, a voz grave e ameaçadora. “Ou você vai se arrepender.”
Guilherme o encarou por um momento, avaliando a ameaça. Finalmente, ele cedeu, soltando o braço de Tainá e recuando alguns passos. “Quem é você?”, ele perguntou, a voz carregada de ódio.
O homem sorriu, um sorriso frio e predador que fez Tainá estremecer. “Meu nome é Cássio. E eu sou o novo pesadelo de Guilherme Carvalho.” Ele se virou para Tainá, seus olhos encontrando os dela. “Você está bem?”, ele perguntou, a voz suave e preocupada.
Tainá assentiu, atordoada pela súbita reviravolta dos acontecimentos. “Sim, obrigada.”
Cássio voltou a encarar Guilherme. “É melhor você ficar longe dela, Guilherme. Ou as consequências serão graves.” Ele pegou a mão de Tainá e a puxou para fora do camarote, deixando Guilherme para trás, fervendo de raiva.
Enquanto se afastavam, Tainá olhou para trás e viu Guilherme observando-os, o olhar fixo nela, carregado de promessas de vingança. Ela estremeceu, sentindo um arrepio percorrer sua espinha. Aquela noite, a guerra tinha começado. E ela sabia que não seria fácil.
Cássio a conduziu até um canto mais isolado da boate, longe dos olhares curiosos. “Você deveria ir embora daqui”, ele disse, a voz séria. “Guilherme é perigoso. Você não pode enfrentá-lo sozinha.”
Tainá o encarou, desafiadora. “Eu não estou sozinha. Eu tenho você.”
Cássio sorriu, um sorriso que a fez sentir um calor estranho em seu peito. “Você não me conhece, Tainá. Eu sou tão perigoso quanto Guilherme.”
“Talvez seja exatamente disso que eu preciso”, ela respondeu, aproximando-se dele. “Alguém que não tenha medo de sujar as mãos.”
Cássio se inclinou, o rosto próximo ao dela. “Você não sabe no que está se metendo, Tainá.”
“Eu sei exatamente”, ela sussurrou, sentindo o hálito quente dele em seu rosto. “Eu estou me metendo em uma guerra. E eu preciso de um aliado.” Ela ergueu os olhos, encontrando os dele. “Você está disposto a lutar ao meu lado, Cássio?”
Antes que Cássio pudesse responder, o som de um tiro ecoou pela boate. As luzes se apagaram e o caos se instalou. Tainá gritou, agarrando-se a Cássio em busca de proteção. Quando as luzes se acenderam novamente, o corpo de Guilherme estava estendido no chão, em meio a uma poça de sangue. E Cássio, o homem que havia jurado protegê-la, segurava uma arma fumegante na mão.