O Silêncio Antes do Inferno
Chapter 1 — O Silêncio Antes do Inferno
O vestido vermelho era uma afronta. Uma mancha de sangue gritando em meio ao mar de ternos pretos e vestidos de seda discretos. Bruna sabia que estava desafiando uma ordem silenciosa, um código não escrito, mas naquela noite, o luto não a pertencia.
O ar estava carregado com o cheiro de incenso barato e a tensão palpável dos homens da Família Leone. O velório de Don Alessandro era uma exibição de poder, uma dança macabra de lealdades e traições sussurradas. Bruna observava tudo de um canto, seus olhos escuros varrendo o salão suntuoso da mansão, buscando uma única figura.
Fernando. O filho mais velho, o herdeiro do império. Ele estava ali, no centro do furacão, com a frieza de uma estátua e a sombra da dor tatuada no rosto. Bruna se lembrava dele sorrindo, antes do peso da responsabilidade esmagá-lo. Antes do inferno se instalar em suas vidas.
Ela e Fernando eram amigos de infância, vizinhos em um bairro tranquilo de São Paulo, antes da máfia engolir suas famílias. Bruna nunca quis fazer parte disso, mas seu pai, um contador ambicioso, se viu envolvido nas finanças da Família Leone. E agora, ela estava presa nesse jogo perigoso, com uma dívida que só Fernando podia perdoar.
Bruna aproximou-se dele, desviando dos olhares curiosos e dos cumprimentos formais. Fernando parecia alheio ao mundo ao seu redor, absorto em seus pensamentos. Ela tocou seu braço levemente, e ele se virou, seus olhos encontrando os dela. Um lampejo de surpresa, seguido por uma máscara de indiferença.
"Fernando," ela sussurrou, sua voz embargada pela emoção. "Meus sentimentos..."
Ele a interrompeu com um gesto frio. "Guarde suas condolências, Bruna. Elas não significam nada para mim." Sua voz era um murmúrio perigoso, carregado de dor e ressentimento. "Você sabe por que está aqui."
Bruna engoliu em seco, sentindo o peso do olhar de Fernando sobre ela. "Eu sei. Meu pai..."
"Seu pai deve a Família Leone uma quantia considerável. Uma quantia que ele não pode pagar," Fernando completou, seus olhos fixos nos dela. "Uma dívida que agora recai sobre você."
Bruna assentiu, resignada. Ela sabia que esse momento chegaria. Sabia que o preço da ambição do pai seria pago com sua liberdade. "Eu farei o que for preciso para pagar a dívida."
Fernando sorriu, um sorriso frio que não alcançava seus olhos. "Eu sei que vai. Tenho um plano para você, Bruna. Um plano que beneficiará a todos nós."
Ele se aproximou, sua voz um sussurro venenoso em seu ouvido. "Você se casará comigo. E assim, a dívida será paga."
O sangue de Bruna gelou nas veias. Casar com Fernando? Entregar-se de corpo e alma ao homem que ela amava em segredo, ao herdeiro da máfia, ao centro de todo aquele inferno? Ela abriu a boca para protestar, mas as palavras morreram em sua garganta. O olhar de Fernando era implacável, sem espaço para negociação. Ela estava presa, encurralada em uma teia de dívidas e desejos proibidos.
Antes que ela pudesse responder, uma voz cortou o ar. "Fernando!" Uma mulher elegante, com um vestido preto impecável e um olhar de predador, se aproximou deles. "Precisamos conversar. Sobre o futuro da Família."
Fernando se afastou de Bruna, seus olhos voltando a ser frios e impenetráveis. "Com licença, Bruna. Temos assuntos mais importantes para tratar." Ele se virou para a mulher, e juntos, eles desapareceram na multidão. Bruna ficou ali, sozinha, sentindo-se mais perdida e desesperada do que nunca. O silêncio antes do inferno havia começado.
Enquanto observava Fernando se afastar, Bruna notou algo que a fez paralisar. Preso discretamente no cós da calça da mulher, brilhava o cabo metálico de uma pequena pistola. Uma arma que Bruna conhecia bem. Uma arma que pertencia ao seu pai, e que havia desaparecido na noite em que ele contraiu a dívida com a Família Leone.