Rubra na Boate do Russo
Chapter 1 — O Diamante Negro na Garganta
O gosto metálico do sangue ainda pairava na minha boca enquanto eu encarava o reflexo pálido no espelho estilhaçado do banheiro. Aquela boate, a "Tentação," era o inferno particular de Wanessa Sampaio, 24 anos, formada em administração, e agora, aparentemente, uma fugitiva. Não era exatamente o futuro que minha avó, Dona Celeste, havia previsto quando me mandou para a faculdade em São Paulo.
Eu me chamava de idiota mentalmente. Como pude ser tão ingênua? A proposta parecia tão tentadora: organizar as finanças da boate em troca de um salário decente e a chance de sair da casa dos meus pais em Osasco. Típico conto de fadas moderno, com um príncipe encantado… ou, no meu caso, um mafioso russo chamado Dimitri Volkov.
Volkov. Só de pensar no nome, um arrepio percorria minha espinha. Seus olhos gélidos, a forma como ele me olhava… como se eu fosse um objeto, uma mercadoria. Eu descobri rápido demais que a "Tentação" era muito mais que uma boate. Era o centro de uma teia de crimes, lavagem de dinheiro, e outros negócios sujos que eu preferia não saber os detalhes.
Eu estava prestes a denunciá-lo. Tinha provas. Documentos que incriminavam Volkov e seus associados. Documentos que agora estavam escondidos dentro de um ursinho de pelúcia vagabundo que comprei em uma loja de conveniência na esquina. Ninguém desconfiaria do Sr. Fofinho.
O problema é que Dimitri Volkov era mais esperto do que eu imaginava. Ele descobriu minhas intenções. Não sei como, mas ele descobriu. E agora, seus capangas estavam por toda parte, me caçando como um animal acuado.
Respirei fundo, tentando controlar o tremor nas mãos. Precisava sair dali. Precisava chegar à polícia. Precisava proteger Dona Celeste. Se alguma coisa acontecesse comigo, ela ficaria sozinha.
Saí do banheiro, cautelosamente, espiando pelo corredor escuro. A música alta abafava o som dos meus passos, mas eu sabia que eles estavam perto. Podia sentir o cheiro de perigo no ar, uma mistura nauseante de perfume barato, suor e medo.
Avistei uma janela nos fundos. Era pequena, mas talvez eu conseguisse passar. Corri até lá, sentindo a adrenalina percorrer minhas veias. Empurrei com toda a força, mas a janela estava emperrada. Maldito seja Dimitri Volkov e sua boate decadente!
De repente, ouvi passos pesados se aproximando. Eles estavam vindo atrás de mim. Não havia para onde correr.
Desesperada, agarrei um caco de vidro quebrado do chão. Era minha única arma. Não era muito, mas era o suficiente para lutar. Eu não ia me entregar. Não ia deixar que Dimitri Volkov me destruísse.
Os passos pararam do lado de fora da porta. Uma voz rouca, com sotaque russo carregado, ecoou pelo corredor: "Wanessa, querida, sabemos que você está aí. Não torne isso mais difícil para você."
Engoli em seco, apertando o caco de vidro com mais força. Meus dedos estavam sangrando, mas eu não sentia dor. Apenas raiva. Raiva e determinação.
A porta se abriu com um estrondo. Dois homens enormes, com rostos inexpressivos, invadiram o quarto. Seus olhos me encontraram, frios e calculistas.
"Entregue os documentos, Wanessa", disse um deles, com a voz gélida. "E Dimitri pode ser… generoso."
Dei um sorriso amargo. "Generoso? Você acha que eu sou idiota? Eu sei o que acontece com quem cruza o caminho de Dimitri Volkov."
Eles se entreolharam, visivelmente irritados. O outro homem avançou, estendendo a mão para me agarrar.
Eu reagi por instinto. Avancei com o caco de vidro, mirando no rosto dele. Ele gritou de dor, cambaleando para trás. O outro homem hesitou por um momento, surpreso com a minha ousadia.
Foi a minha chance. Corri para a porta, empurrando-o com toda a minha força. Ele caiu no chão, atordoado. Saí correndo pelo corredor, sem olhar para trás.
Ouvi os gritos e os xingamentos atrás de mim, mas não parei. Corri como se minha vida dependesse disso. Porque dependia.
Cheguei à rua, ofegante e desesperada. A noite estava fria e escura. As luzes da cidade brilhavam fracamente, como se estivessem zombando da minha situação.
Precisava de ajuda. Precisava encontrar alguém em quem pudesse confiar. Mas em quem? Em São Paulo, a cidade grande, a selva de pedra, a solidão era a única companhia garantida.
De repente, um carro preto parou bruscamente ao meu lado. A janela abaixou, revelando um rosto familiar. Um rosto que eu não via há anos. Um rosto que eu jamais imaginei que veria novamente.
"Wanessa?", ele perguntou, com uma expressão de surpresa e… preocupação? "O que você está fazendo aqui? Entre no carro. Rápido!"
Era Tiago. Tiago Castelo Branco. Meu ex-namorado da faculdade. O homem que partiu meu coração há cinco anos. O herdeiro de um império, um bilionário que agora estava me oferecendo uma fuga. Mas poderia eu confiar nele? Ou ele também estava envolvido nos negócios sujos de Dimitri Volkov? Era uma armadilha? Eu não sabia. Mas, naquele momento, era a única chance que eu tinha.
"Tiago…", eu sussurrei, sem saber o que fazer. Meus instintos gritavam para fugir, para me esconder. Mas a exaustão e o medo eram mais fortes.
Antes que eu pudesse tomar uma decisão, Tiago abriu a porta do carro e me puxou para dentro. O carro arrancou em alta velocidade, deixando a boate "Tentação" para trás. Mas eu sabia que não estava a salvo. Dimitri Volkov não desistiria facilmente. E agora, Tiago Castelo Branco estava envolvido nisso também. De alguma forma, eu sabia que minha vida nunca mais seria a mesma. E que o passado, que eu tanto me esforçava para esquecer, havia voltado para me assombrar. E com juros.