O Beijo de Ébano

Chapter 1 — O Beijo de Ébano

O sangue quente espirrou no meu rosto, a ironia de uma vida que eu nunca pedi sendo banhada na essência da minha eterna prisão.

Chamem-me Lilith. Um nome sussurrado nas sombras de Sanctus, a cidade onde a noite reina e os vampiros governam com punhos de veludo e presas de aço. Fui criada para ser um brinquedo, uma boneca de sangue para a elite vampírica. Minha pele, pálida como o luar, é minha maldição e minha virtude.

Hoje, a ironia beira o grotesco. Estou no Salão das Marés de Sangue, o epicentro do poder em Sanctus. As paredes, adornadas com tapeçarias que retratam a ascensão dos Senhores da Noite, ecoam com o som abafado de conversas lascivas e o tilintar de taças de cristal repletas de um líquido rubro que outrora pulsou em veias humanas.

Sou a oferenda. A “escolhida”.

O ar está carregado com o aroma metálico do sangue e o perfume denso de rosas negras, uma combinação nauseante que dança nas minhas narinas. Meus pulsos estão presos por correntes de prata fria, e cada elo sussurra uma promessa de dor e submissão. Observo a multidão. Rostos pálidos, olhos vermelhos brilhando com luxúria e poder, todos famintos, todos predadores.

No centro do salão, elevado em um trono de obsidiana, está ele: Kael. O Senhor da Noite. Sua beleza é perigosa, quase sobrenatural. Cabelos negros como a asa de um corvo emolduram um rosto esculpido em ângulos perfeitos. Seus olhos, duas brasas ardentes, fixam-se em mim, avaliando-me como um açougueiro avalia a carne.

Rumores dizem que Kael é o mais cruel e implacável de todos os Senhores da Noite. Sua sede por sangue é insaciável, sua crueldade, lendária. E eu, Lilith, serei sua. Pelo menos, é o que todos esperam.

Sinto um arrepio percorrer minha espinha quando Kael se levanta. O silêncio cai sobre o salão como um sudário. Seus movimentos são graciosos, felinos, enquanto ele desce os degraus do trono. A cada passo, a tensão no ar aumenta, tornando-se quase palpável.

Ele para diante de mim, seus olhos queimando em minha alma. Sua mão, fria como a morte, levanta meu queixo, forçando-me a encará-lo. Sinto o hálito gélido roçar minha pele, carregando o aroma adocicado do sangue que ele consumiu recentemente.

"Lilith," ele sussurra, sua voz um trovão abafado. "Um nome adequado para a primeira mulher, e para a última esperança."

Sua declaração é enigmática, carregada de um significado oculto que me escapa. Que esperança ele espera de mim? Que papel devo desempenhar neste jogo macabro?

"Você é uma oferenda," ele continua, seus olhos perfurando os meus. "Um sacrifício para saciar a sede dos Senhores da Noite."

Sinto o pânico começar a se instalar em meu peito. A aceitação resignada que me acompanhou até este momento se esvai, substituída por um terror visceral. Eu não quero morrer. Não quero ser apenas um banquete para esses monstros.

"Mas," Kael pausa, um sorriso gélido curvando seus lábios. "Talvez… talvez você possa ser mais do que isso."

Ele se inclina mais perto, seus lábios roçando meu ouvido. "Talvez… você possa se tornar minha rainha."

O choque me paralisa. Rainha? Eu, Lilith, a boneca de sangue, a oferenda, tornar-se a rainha de Kael, o Senhor da Noite? A ideia é absurda, quase insana. Mas, ao mesmo tempo, uma faísca de esperança, ou talvez ambição, acende-se dentro de mim.

Kael se afasta, seus olhos fixos nos meus. "Se você provar ser digna, Lilith," ele diz, sua voz carregada de promessas e ameaças. "Se você provar ser forte o suficiente… então, talvez, eu lhe conceda o beijo da imortalidade."

Ele se vira para a multidão, erguendo a mão em um gesto teatral. "Que comece o julgamento! Que Lilith prove seu valor!"

Um burburinho percorre o salão. Os Senhores da Noite trocam olhares curiosos e excitados. O ar se enche de expectativa. O que Kael tem em mente? Que tipo de provas ele me submeterá? E, mais importante, posso sobreviver a elas?

Um servo se aproxima, carregando uma bandeja de prata. Sobre ela, repousa um objeto envolto em um pano de veludo negro. O servo se ajoelha diante de Kael, oferecendo-lhe a bandeja.

Kael remove o pano com um floreio dramático. Revelado sob ele está… uma adaga. Uma adaga antiga, com a lâmina banhada em sangue seco e o cabo adornado com caveiras de obsidiana.

"Sua primeira prova, Lilith," Kael anuncia, sua voz ecoando pelo salão. "Mate aquele que te aprisionou."

Ele aponta para um homem no meio da multidão. Um homem que eu conheço muito bem. Um homem cujo nome amaldiçoo em meus sonhos mais sombrios. Um homem… meu pai.

Meus olhos se arregalam em horror. Eu não posso fazer isso. Eu não consigo matar meu próprio pai. Mas, se eu me recusar… serei considerada indigna. Serei descartada. Serei… morta.

Sinto o peso da adaga nas minhas mãos. O metal frio queima minha pele. Olho para Kael, buscando clemência em seus olhos. Mas encontro apenas uma expectativa fria e implacável.

Meu pai me encara, seus olhos cheios de medo e súplica. Ele sabe que minha vida, e a dele, dependem da minha próxima ação.

O Salão das Marés de Sangue silencia. Todos os olhos estão fixos em mim. O destino de Lilith, a oferenda, está pendurado por um fio. E o fio… é uma adaga.

Respiro fundo. Fecho os olhos. E tomo minha decisão.