Véu de Sangue e Seda
Chapter 1 — O Segredo no Vestido de Noiva
O buquê de orquídeas brancas tremia em minhas mãos, um eco do pânico que crescia em meu peito. Não era nervosismo de noiva. Era terror puro. Eu, Fernanda Pinto, estava prestes a me casar com um homem que mal conhecia, tudo para salvar o legado da minha família.
A Quinta da Boa Vista, em pleno Rio de Janeiro, parecia zombar da minha desgraça. O sol brilhava forte, refletindo no espelho d’água do lago, onde casais apaixonados se beijavam despreocupadamente. A brisa suave trazia o perfume das flores do jardim, mas eu só conseguia sentir o cheiro acre do medo.
Havia apenas três meses, minha vida era perfeita. Estudante de design de moda na UFRJ, sonhando em abrir meu próprio atelier, apaixonada por Nelson, meu namorado de infância. Tudo desmoronou quando meu pai, um renomado advogado, revelou a verdade: nossa família estava à beira da falência. Anos de investimentos ruins e dívidas escondidas o haviam levado à ruína. A única salvação? Um casamento arranjado com Davi Gomes, herdeiro de um império empresarial e, segundo meu pai, o único capaz de nos tirar do buraco.
Nelson, é claro, não entendeu. Acreditou que eu estava sendo ambiciosa, atraída pelo dinheiro de Davi. Nossas discussões se tornaram frequentes e dolorosas, culminando em um término amargo que me deixou com o coração em pedaços. Mas eu não podia voltar atrás. O futuro da minha família dependia de mim.
Davi era um enigma. Alto, elegante, com olhos escuros que pareciam ler minha alma. Em nossos breves encontros, ele se mostrou reservado, quase frio. Não demonstrava afeto, nem paixão. Apenas uma determinação implacável em cumprir o acordo. O acordo: ele salvaria as empresas Pinto, e eu seria sua esposa por, pelo menos, dois anos. Um contrato com cláusulas detalhadas, que incluíam até mesmo a frequência de aparições públicas e a obrigação de gerar um herdeiro.
Enquanto caminhava pelo corredor da igreja, o som do órgão se intensificava. Avistei Davi no altar, impecável em seu terno sob medida. Seu olhar encontrou o meu, sem qualquer emoção aparente. Apenas uma fria avaliação. Senti um calafrio percorrer minha espinha.
A cerimônia seguiu como um roteiro ensaiado. As palavras do padre soavam distantes, quase irreais. Troquei alianças com Davi, um anel de diamantes que parecia pesar uma tonelada em meu dedo. Recebi os cumprimentos dos convidados, sorrisos falsos e olhares curiosos. E então, no momento em que o padre declarou "Pode beijar a noiva", Davi se aproximou.
Seu beijo foi frio e protocolar, sem qualquer vestígio de desejo. Apenas um selo em meus lábios, como a assinatura final de um contrato. Mas, quando ele se afastou, sussurrou em meu ouvido, com uma voz rouca que me fez tremer: "Aproveite a festa, Fernanda. Depois, as coisas ficarão… interessantes".
Na festa, tentei sorrir e interagir com os convidados, mas a frase de Davi ecoava em minha mente. O que ele queria dizer com “interessantes”? Seria uma ameaça? Um aviso? Ou… uma promessa? Bebi uma taça de champanhe para tentar relaxar, mas o álcool só intensificou minha ansiedade.
Mais tarde, já no final da festa, enquanto me preparava para trocar de roupa e partir para a noite de núpcias, encontrei um pequeno envelope de veludo escondido no bolso interno do meu vestido de noiva. Abri-o com os dedos trêmulos. Dentro, havia uma única foto. Uma foto de Davi… beijando outra mulher. Uma mulher que eu conhecia muito bem.