Véu da Irmã, Lágrimas Minhas

Chapter 1 — O Segredo Escondido no Bordado

O cheiro de maresia invadia o ateliê de costura, misturando-se com o aroma doce e enjoativo do cravo-da-índia que Dona Celeste fervia para acalmar os nervos. Mas nem o cheiro do mar, nem o chá da minha avó conseguiam apagar a culpa que me corroía por dentro, enquanto eu, Renata, ajustava o véu de noiva de minha irmã, Lara.

Em três semanas, Lara se casaria com Fábio Correia, o homem que eu amava desde os meus dezesseis anos. Fábio, com seu sorriso fácil, seus olhos cor de mel e aquela maneira irritante de sempre saber o que dizer para me fazer rir, era tudo o que eu sempre quis. E agora, ele seria meu cunhado.

Suspirei, prendendo o véu delicadamente sobre o cabelo de Lara. Ela se virou, radiante, com o rosto iluminado pela felicidade. "Está perfeito, Rafa! Você é a melhor." Sua voz era pura alegria, alheia ao turbilhão que acontecia dentro de mim.

"Que bom que gostou", respondi, tentando forçar um sorriso. Era difícil encará-la, sabendo o segredo que eu guardava, o segredo que me sufocava a cada dia. Um segredo que começou em uma noite de chuva, há dois meses, durante a festa de noivado deles.

Lembro-me como se fosse ontem. A chuva torrencial, a falta de luz, o gerador quebrado. Fábio, preocupado em acalmar os convidados, me pediu para verificar a caixa de fusíveis. No escuro, tropecei e ele me amparou. Nossos rostos estavam próximos, a respiração dele quente em meu rosto. Por um instante, o mundo parou. E então, ele me beijou. Um beijo rápido, quase um selinho, mas que incendiou cada fibra do meu ser.

Depois, a luz voltou, e tudo pareceu voltar ao normal. Fábio agiu como se nada tivesse acontecido, e eu, atordoada, guardei o segredo a sete chaves. Mas aquele beijo mudou tudo. A partir daquele momento, a cada encontro, a cada sorriso, a cada toque acidental, a eletricidade entre nós era palpável.

Dona Celeste pigarreou, chamando nossa atenção. "Meninas, vamos tomar um café. Lara, você precisa se alimentar. Está magra demais para uma noiva!" Ela sempre cuidava de nós duas, como uma galinha protegendo seus pintinhos. Era a matriarca da família, a dona do ateliê, e a responsável por nos criar desde que nossos pais morreram em um acidente de carro, quando éramos pequenas.

Enquanto tomávamos café na varanda, observando o mar bravio, Lara falava sobre os preparativos do casamento, sobre a lua de mel em Fernando de Noronha, sobre a casa nova que ela e Fábio iriam construir. A cada palavra, meu coração se apertava mais. Como eu poderia suportar ver o homem que eu amava se casando com minha irmã?

De repente, meu celular tocou. Um número desconhecido. Hesitei antes de atender. "Alô?"

Uma voz grave e rouca respondeu do outro lado da linha. "Renata? Sou eu, Fábio. Preciso falar com você. Encontre-me no píer daqui a uma hora. É urgente."

Antes que eu pudesse responder, ele desligou. O pavor me invadiu. O que ele queria? Será que ele sabia que eu ainda o amava? Será que ele sentia o mesmo por mim? Levantei-me abruptamente, sob o olhar confuso de Lara e Dona Celeste.

"Preciso sair", murmurei, sem dar explicações. "Volto logo." Corri para o meu quarto, com o coração batendo forte no peito. Vesti a primeira roupa que encontrei e saí de casa, em direção ao píer. Sabia que estava prestes a cruzar uma linha que não poderia ser desfeita. Uma linha que poderia destruir minha família e a felicidade de minha irmã. Mas eu precisava saber o que Fábio tinha para me dizer. Eu precisava saber se o beijo naquela noite significou algo para ele, ou se eu estava vivendo em uma fantasia.

Cheguei ao píer ofegante. Fábio estava lá, de pé, olhando para o mar. Seu rosto estava sombrio, preocupado. Ele se virou quando me ouviu chegar e caminhou em minha direção. "Renata, preciso te contar uma coisa… Algo terrível aconteceu."

Ele fez uma pausa, respirando fundo. "Lara… Lara não é quem você pensa que ela é."