Leilão de Corações
Chapter 1 — O Silêncio Estrondoso dos Diamantes
O leilão silenciou assim que a pulseira de diamantes – a 'Serpente de Orfeu' – surgiu, banhada por holofotes cruéis. Eu precisava daquela joia. Não para mim, claro. Para pagar a dívida estúpida do meu irmão, uma espiral de apostas e promessas vazias que o afogavam nas sombras da Zona Sul.
Meu vestido preto, alugado a preço de ouro, grudava na pele úmida. O ar-condicionado lutava em vão contra o calor abafado do salão, repleto de figuras da alta sociedade carioca. Homens engravatados cochichavam ofertas indecentes, enquanto mulheres adornadas com joias absurdamente caras avaliavam umas às outras com sorrisos venenosos. Eu me sentia um peixe fora d'água, uma intrusa em um mundo que nunca me pertenceu.
Suspirei, apertando a pequena bolsa de couro sintético que continha cada centavo economizado nos últimos meses. Suficiente para uma entrada, talvez. Mas não para competir com os tubarões que circulavam ali. Precisava de um milagre, e milagres, como minha avó sempre dizia, eram artigos de luxo.
A voz grave do leiloeiro ecoou pelo salão, anunciando o lance inicial. Cem mil reais. Uma onda de murmúrios percorreu a plateia. Era a minha deixa. Levantei a mão, sentindo o sangue gelar nas veias. “Cento e dez mil”, declarei, a voz tremendo levemente.
Um silêncio mortal se abateu sobre o salão. Todos os olhares se voltaram para mim, curiosos, avaliadores, alguns até divertidos. Eu, Bianca Sampaio, a garota da periferia, ousando competir com a elite. Quase pude ouvir seus pensamentos debochados. “Quem essa pobretona pensa que é?”
Uma risada baixa, carregada de escárnio, cortou o ar. Um homem alto, elegante, com um terno impecável e um olhar frio e penetrante, me encarava com desdém. Seus olhos eram da cor do oceano revolto, e seus lábios, finos e cruéis, esboçavam um sorriso predador. Bernardo Araújo. O bilionário mais cobiçado e temido do Rio de Janeiro. E, pelo que eu sabia, um homem sem escrúpulos.
“Cento e cinquenta mil”, ele disse, a voz aveludada e ameaçadora. Era um jogo de poder, e eu acabara de entrar no tabuleiro. Engoli em seco, tentando manter a compostura. Sabia que não podia competir com ele. Mas também sabia que a vida do meu irmão dependia daquela pulseira.
“Cento e sessenta mil”, respondi, sentindo o suor escorrer pela testa. Era tudo o que eu tinha. Minha última cartada. Bernardo Araújo sorriu, um sorriso que não alcançava seus olhos gélidos. “Trezentos mil”, ele retrucou, sem sequer piscar. O salão inteiro prendeu a respiração. Era o xeque-mate.
Senti o chão sumir sob meus pés. A pulseira, a esperança, tudo escorria por entre meus dedos. Olhei para Bernardo Araújo, procurando algum sinal de compaixão, alguma faísca de humanidade naquele rosto impecável. Mas só encontrei frieza, cálculo, e um prazer sádico em me ver derrotada.
Respirei fundo, reunindo o pouco de dignidade que me restava. “Trezentos e dez mil”, eu disse, a voz quase inaudível. Era uma aposta desesperada, um blefe ridículo. Eu não tinha como pagar essa quantia. Mas precisava ganhar tempo, precisava de um plano.
Bernardo Araújo arqueou uma sobrancelha, surpreso. Pela primeira vez, vi uma sombra de dúvida em seus olhos. Ele me avaliou de cima a baixo, como se tentasse decifrar meus pensamentos. Então, um sorriso lento e perigoso se espalhou por seus lábios. “Trezentos e dez mil… Interessante. Bianca Sampaio, não é mesmo? Tenho uma proposta para você.” Ele se aproximou, sussurrando em meu ouvido, a voz rouca e carregada de promessas sombrias. “Que tal… um acordo?”
Ele estendeu um cartão de visitas. Ao pegar, meus dedos roçaram nos dele, um choque elétrico percorreu meu corpo. No cartão, apenas um endereço e um horário. Um encontro. Ele queria me encontrar. E eu sabia, no fundo da minha alma, que aceitar aquele convite mudaria minha vida para sempre. Mas qual seria o preço?