No Jardim das Orquídeas Amaldiçoadas
Chapter 1 — No Jardim das Orquídeas Amaldiçoadas
O cheiro doce e enjoativo das orquídeas prenunciava desgraça. Karen sabia disso desde menina, quando sua avó, Dona Benedita, a trancava no orquidário como castigo. "Essas flores atraem espíritos ruins, minha neta. São bonitas, mas traiçoeiras." E agora, parada diante daquele mar de pétalas brancas e roxas, o pressentimento de Karen se confirmava: seu destino estava selado.
O comunicado da família Ferraz havia chegado naquela manhã, lacrado com o brasão da família e um bilhete curto e direto: Eduardo Ferraz a tomaria como esposa em um mês. Não havia pedido, não havia negociação, apenas uma afirmação fria e implacável. Karen, com seus vinte e dois anos e sonhos de cursar Letras na USP, era agora moeda de troca para sanar as dívidas da família Reis.
Sua família, outrora uma das mais ricas de São Paulo, definhava lentamente sob o peso de investimentos mal feitos e o vício do jogo de seu pai. O casarão no Morumbi, antes palco de festas e bailes, rangia com o silêncio da decadência. A única esperança, a tábua de salvação, era o clã Ferraz, tão poderoso quanto implacável.
Eduardo Ferraz. O nome soava como uma sentença. Karen nunca o vira, apenas o conhecia através das manchetes de jornais e revistas de economia: um magnata frio, calculista e impiedoso, herdeiro de um império industrial construído sobre o sangue e o suor de seus antepassados. Um homem que, diziam, colecionava amantes como troféus e descartava-as sem piedade.
Sua irmã, Cláudia, tentou consolá-la. "Rafa, talvez não seja tão ruim assim. Eduardo é bonito, inteligente… e rico!" Mas Karen não se iludia. Beleza e riqueza não compensariam a falta de amor, a prisão dourada que a esperava.
Naquela noite, durante o jantar, o silêncio na mesa era palpável. Seu pai, com o rosto avermelhado e as mãos trêmulas, mal tocou na comida. Sua mãe, com os olhos inchados de tanto chorar, tentava manter a compostura. Apenas Cláudia demonstrava um falso otimismo, falando sobre os vestidos de noiva e a decoração da festa.
"Karen", seu pai finalmente disse, quebrando o silêncio. "Você sabe o quanto isso é importante para nós. Para a família." Sua voz embargava e ele não conseguia encará-la nos olhos.
"Eu sei, pai", respondeu Karen, com a voz embargada. "Eu sempre soube." Desde pequena, fora ensinada a priorizar o bem-estar da família acima de tudo. Seus sonhos, seus desejos, sua felicidade… tudo isso era secundário.
Após o jantar, refugiou-se novamente no orquidário. O cheiro das flores parecia mais forte, mais sufocante do que nunca. Pegou uma tesoura de jardinagem e, com as mãos tremendo, cortou um caule de orquídea branca. As pétalas caíram sobre suas mãos como lágrimas.
De repente, ouviu passos atrás de si. Virou-se e viu uma figura alta e sombria parada à porta do orquidário. A luz da lua incidia sobre seu rosto, revelando traços duros e frios. Seus olhos, escuros e penetrantes, pareciam ler sua alma. Era ele. Eduardo Ferraz.
"Karen Reis", ele disse, com uma voz grave e rouca que ecoou no orquidário. "Vim conhecê-la. Minha futura esposa."
Ele caminhou lentamente em sua direção, seus passos firmes e decididos. Karen sentiu o sangue gelar nas veias. Ele parou a poucos centímetros dela, tão perto que ela podia sentir o calor de seu corpo. Pegou a orquídea que ela segurava e a observou por alguns segundos. "Bonita", ele disse, com um sorriso frio e cruel. "Mas efêmera. Assim como a sua liberdade."
E então, sem aviso, ele a beijou. Um beijo frio, possessivo e avassalador, que a deixou sem ar e com um único pensamento: sua vida, como ela conhecia, havia acabado. E o homem que a beijava, o homem que seria seu marido, era a personificação de todos os seus medos. Mas quando ele se afastou, sussurrando em seu ouvido palavras que a fizeram tremer da cabeça aos pés, Karen percebeu que o medo era apenas o começo. O pior ainda estava por vir.