Herdeira do Asfalto

Chapter 1 — Herdeira do Asfalto

O cheiro de gasolina e asfalto quente invadia meus pulmões, uma fragrância tão familiar quanto o perfume caro da minha mãe. Era o aroma da minha vida, da minha herança, da prisão dourada que me aguardava. O Autódromo de Interlagos, palco de glórias e tragédias, seria também o palco do meu destino.

Eu, Ingrid Bittencourt, herdeira da maior rede de postos de gasolina do Brasil, estava prestes a ser vendida como um barril de petróleo no mercado financeiro. Um casamento arranjado, selado entre meu pai e o ambicioso dono de uma empresa de logística falida, era o preço da salvação dos nossos negócios.

Olhei para o carro de corrida estacionado no box. Meu refúgio. A adrenalina era a única coisa que me fazia sentir viva em meio a tanto controle e expectativas. Meu pai nunca entenderia. Para ele, eu era apenas uma peça no tabuleiro de xadrez corporativo.

"Ingrid, querida, ele chegou," a voz melosa da minha mãe cortou o ar. Revirei os olhos. O 'ele' era Renato Lopes, meu futuro marido. Um homem que eu nunca tinha visto, mas cujo nome já me causava urticária.

Respirei fundo, tentando controlar a raiva que borbulhava em meu peito. Precisava manter a calma, pelo menos por enquanto. Não podia dar o gostinho da vitória tão fácil para eles. Caminhei em direção à entrada dos boxes, sentindo o peso do meu destino em cada passo.

Renato Lopes era ainda mais insuportável do que eu imaginava. Alto, bronzeado, com um sorriso presunçoso que me dava vontade de socar sua cara bonita. Ele me analisou de cima a baixo, como se eu fosse um cavalo à venda. "Ingrid, um prazer finalmente conhecê-la. Seu pai me falou muito sobre suas... habilidades," ele disse, com um tom malicioso que me arrepiou da cabeça aos pés. "Mal posso esperar para explorá-las."

Antes que eu pudesse responder àquela afronta, meu pai se aproximou, com um sorriso amarelo no rosto. "Renato, meu rapaz, que bom que chegou! Ingrid, seja educada. Renato será seu marido em breve."

Olhei para os dois, sentindo um ódio crescente. Era como se minha vida não me pertencesse mais. Mas, no fundo, uma faísca de rebeldia ainda queimava. Eu não seria uma noiva submissa. Eu não seria uma esposa troféu. Eu daria a eles o inferno. E começaria naquela noite, no jantar de noivado. Eu já tinha um plano em mente, um plano que envolvia um vestido vermelho, um discurso explosivo e a maior humilhação pública que Renato Lopes jamais experimentaria. A noite seria longa… e sangrenta.