O Sabor Amargo das Jabuticabas

Chapter 1 — O Sabor Amargo das Jabuticabas

O champanhe borbulhava, uma ironia cruel dançando na taça enquanto eu encarava o mar de rostos hipócritas. Sorrisos falsos, vestidos caros, a ostentação nauseante da elite paulistana reunida ali, na festa de noivado de Rafael. Meu Rafael. Ou, o que eu pensava ser meu.

O ar cheirava a jasmim e traição. Três anos da minha vida, jogados no lixo como um buquê murcho. Três anos de planos, sonhos sussurrados ao pé do ouvido, juras de amor eterno que agora ecoavam como uma piada de mau gosto. E tudo por quê? Porque a família dele era rica, influente, e eu… eu era apenas Iara, a garota pobre do interior, com ambições demais para o seu próprio bem.

Avistei-o do outro lado do salão. Rafael, impecável em seu terno sob medida, o braço entrelaçado ao de Úrsula, a herdeira dos Lima. Ela, com seu sorriso vitorioso e o diamante grotesco no dedo, representava tudo que eu não era e que, aparentemente, ele desejava. A raiva me consumia como um incêndio, borrando as bordas da realidade.

Respirei fundo, forçando um sorriso. Não daria a eles o prazer de me ver derrotada. Não ali, não agora. Eu, Iara, que colhia jabuticabas no quintal da avó e sonhava com um futuro diferente, mostraria a todos o que significava subestimar uma mulher ferida. A vingança seria meu prato principal, servido frio, com o sabor amargo das jabuticabas da minha infância. Um gosto que Rafael e Úrsula aprenderiam a temer.

Me aproximei lentamente, como uma predadora espreitando sua presa. Rafael me viu e seu sorriso vacilou por um instante. Suficiente. Parei a poucos metros deles, erguendo minha taça em um brinde silencioso.

— Iara! Que bom que veio — Úrsula disse, a voz carregada de um falso entusiasmo que me dava vontade de vomitar. — Rafael estava justamente comentando…

— Estava comentando o quê, Úrsula? — Interrompi, fixando meu olhar em Rafael. Ele engoliu em seco, visivelmente desconfortável. — Que em breve, muito em breve, todos vocês se arrependerão de ter me convidado para esta festa?

Naquele instante, um homem alto e elegante surgiu ao meu lado. Sua mão repousou suavemente na minha cintura. Ele me encarou com olhos intensos e sussurrou em meu ouvido: “Está pronta, Iara? A noite está apenas começando”. Eu não fazia ideia de quem ele era, mas, naquele momento, ele era a minha salvação. E a minha arma.