Último Café em Botafogo
Chapter 1 — O Sabor Amargo do Café Reaquecido
O envelope cor de creme repousava sobre o balcão, como uma sentença. Raquel hesitou, a xícara de café esfriando entre os dedos. Cinco anos. Cinco anos desde que Ricardo desaparecera, levando consigo seus sonhos e a promessa de um futuro juntos. Agora, ele estava de volta, e a convidava para um jantar. Um jantar. Como se o tempo não tivesse deixado cicatrizes profundas.
A pequena cafeteria, "Aroma de Minas", era seu refúgio, o lugar onde ela havia reconstruído sua vida, tijolo por tijolo, aroma por aroma. O cheiro do café moído, o calor suave que emanava da máquina de espresso, a conversa baixa dos clientes – tudo contribuía para a atmosfera acolhedora que ela tanto prezava. Era seu porto seguro em meio à turbulência que sua vida havia se tornado.
Ela suspirou, finalmente pegando o envelope. O papel era grosso, de alta qualidade, com o nome dela caligrafado em uma fonte elegante. Um arrepio percorreu sua espinha. A letra era inconfundível. Era a letra de Ricardo.
Com os dedos trêmulos, Raquel abriu o envelope. Um cartão simples, com um brasão discreto no canto superior esquerdo, revelava o convite. "Ricardo Borges convida para um jantar..." As palavras dançavam diante de seus olhos. O endereço, um restaurante sofisticado no coração de São Paulo, e a data, a próxima sexta-feira. Um nó se formou em sua garganta.
Cinco anos atrás, Ricardo era um estudante de direito ambicioso, apaixonado por Raquel e determinado a conquistar o mundo. Eles planejavam se casar, construir uma família, envelhecer juntos. Mas, em uma noite escura, tudo mudou. Ricardo recebeu uma ligação, saiu apressado e nunca mais voltou. Nenhuma explicação, nenhum adeus. Apenas o silêncio ensurdecedor de sua ausência.
Raquel lutou para seguir em frente. A dor da perda, a raiva da traição, a confusão da incerteza – tudo a consumia. Mas ela era forte, uma mulher de fibra, criada no interior de Minas Gerais. Ela se agarrou à sua paixão por café, transformando um pequeno sonho em um negócio próspero.
Agora, Ricardo estava de volta, como se nada tivesse acontecido. Como se pudesse simplesmente reaparecer e esperar que ela o recebesse de braços abertos. A indignação fervia em seu peito. Quem ele pensava que era?
Ela releu o convite, tentando decifrar o que ele queria. Por que, depois de tanto tempo, ele a procurava? O que ele tinha a dizer? Será que ele finalmente daria as explicações que ela tanto ansiava ouvir? Ou será que ele apenas voltaria para bagunçar ainda mais sua vida?
A porta da cafeteria tocou, interrompendo seus pensamentos. Um homem alto, vestindo um terno impecável, entrou. Seus olhos a procuraram e, por um instante, o tempo pareceu parar. Era ele. Ricardo. Mais maduro, mais elegante, mais... estranho. Seus olhos não carregavam o brilho de outrora, substituído por uma sombra enigmática. Ele caminhou em sua direção, um sorriso hesitante nos lábios.
"Raquel," ele disse, sua voz rouca preenchendo o espaço. "É bom te ver."
Raquel sentiu o chão sumir sob seus pés. A xícara de café espatifou-se no chão, o líquido escuro manchando o piso claro. O silêncio na cafeteria era palpável. Todos os olhos estavam fixos neles. E, naquele momento, Raquel percebeu que sua vida, que ela tanto se esforçara para reconstruir, estava prestes a mudar para sempre. Ricardo estendeu a mão em sua direção, mas antes que ela pudesse reagir, um grito agudo ecoou pela cafeteria. "Larga ela, Ricardo! Você não tem o direito!"