Festa de Máscaras e Punhais
Chapter 1 — O Sabor Amargo das Jabuticabas Roubadas
O champanhe borbulhou, espalhando-se pelo vestido Armani que custou mais que meu aluguel dos últimos seis meses. Mas eu não me importei. O sorriso de cínico satisfeito de Rafael estampava o rosto dele enquanto ele brindava com os convidados, completamente alheio ao furacão de ódio que se formava dentro de mim.
Havia dez anos, Rafael era o garoto pobre que roubava jabuticabas do meu quintal. Agora, ele era o noivo da festa, o herdeiro de um império construído sobre a ruína da minha família. E eu, Gabriela Sampaio, estava ali, infiltrada entre a elite paulistana, pronta para cobrar cada centavo da dívida que ele nos devia.
O salão de festas do Hotel Fasano brilhava sob a luz de lustres de cristal. Flores exóticas, trazidas diretamente da Amazônia, perfumavam o ar. Convidados elegantes sussurravam em seus ternos de grife e vestidos de alta costura, completamente inconscientes da tempestade que se aproximava. Eu me movia entre eles como uma sombra, sorrindo e acenando, cada cumprimento falso alimentando ainda mais minha determinação.
Lembrei-me da minha avó, Dona Celeste, a mulher que me criou. Ela costumava dizer que a vingança é um prato que se come frio. Mas eu não tinha mais paciência para esperar. A cada brinde, a cada risada, a cada demonstração de afeto entre Rafael e sua noiva, a dor da perda se intensificava, corroendo minhas entranhas.
Eu estava linda, impecável. Escolhi um vestido vermelho sangue, um tom ousado que contrastava com a minha palidez. Meus cabelos castanhos estavam presos em um coque elegante, mas alguns fios soltos emolduravam meu rosto, dando-me um ar de mistério. Eu queria que ele me visse, que me reconhecesse. Queria que ele soubesse que eu estava ali, observando-o, planejando sua queda.
Avistei Otávio, meu cúmplice nessa jornada sombria. Ele estava encostado em uma coluna, observando a cena com um sorriso divertido. Otávio era meu melhor amigo desde a infância, e ele entendia a minha dor como ninguém. Ele também tinha seus próprios motivos para querer ver Rafael sofrer. Nossos planos eram complexos, meticulosamente elaborados ao longo de anos. Cada detalhe, cada movimento, havia sido ensaiado à perfeição.
“Tudo pronto?”, sussurrei, aproximando-me dele.
Otávio assentiu, entregando-me uma taça de champanhe. “Apenas espere o sinal. Lembre-se do que combinamos, Gabriela. Sem improvisos.”
Respirei fundo, tentando controlar a ansiedade. O momento estava se aproximando. A música suave de fundo parecia zombar da minha impaciência. Eu precisava manter a calma, seguir o plano. Qualquer erro poderia colocar tudo a perder.
Rafael se aproximou, acompanhado de sua noiva, Giovana. Ela era deslumbrante, com seus olhos azuis e cabelos loiros esvoaçantes. Parecia uma boneca de porcelana, completamente alheia à escuridão que a cercava. Rafael sorriu para mim, um sorriso forçado, sem o menor traço de reconhecimento.
“Gabriela, que bom que você veio”, disse ele, estendendo a mão. “Espero que esteja se divertindo.”
“Estou ótima, Rafael”, respondi, apertando sua mão com firmeza. “A festa está linda. Parabéns.”
Ele me lançou um olhar desconfiado, como se sentisse que algo estava errado. Mas logo desviou o olhar, voltando sua atenção para Giovana. Era agora ou nunca.
No momento em que Otávio fez o sinal combinado – um leve toque no queixo – o DJ interrompeu a música. Um vídeo começou a ser exibido nas enormes telas espalhadas pelo salão. Imagens antigas, em preto e branco, mostravam a fábrica da minha família, a Sampaio Têxtil, em seus tempos de glória. Depois, as imagens mudaram, revelando a falência, o desespero, a humilhação. E, finalmente, Rafael, sorrindo vitoriosamente ao lado do pai, assinando os documentos que selaram nosso destino.
O silêncio no salão era ensurdecedor. Rafael empalideceu, seus olhos arregalados em horror. Giovana o encarava, confusa e assustada. A máscara de perfeição havia caído. O jogo estava apenas começando.