Herança de Cinzas: Capítulo 1 - O Chamado da Família

Chapter 1 — Herança de Cinzas: Capítulo 1 - O Chamado da Família

O toque do telefone ecoou pela cobertura luxuosa, cortando o silêncio da madrugada como uma faca. Wanessa acordou sobressaltada, o lençol de seda grudado na pele úmida. Aquele número, gravado a fogo em sua memória, só podia significar uma coisa: problemas. Problemas grandes.

Ela hesitou, a mão pairando sobre o aparelho. Atender significava mergulhar de volta no mundo que havia jurado deixar para trás, um mundo de sombras e sangue. Mas a família… a família era um laço que nem mesmo o tempo e a distância conseguiam romper.

Com um suspiro resignado, Wanessa deslizou o dedo na tela. A voz rouca de seu tio, Salvatore, invadiu o quarto, carregada de urgência. “Wanessa, precisamos de você. Seu pai… ele se foi.”

As palavras atingiram Wanessa como um soco no estômago. Seu pai, Vittorio Mancini, o Don da Famiglia Mancini, morto? Era impossível. Vittorio era uma lenda, um homem implacável e poderoso, aparentemente invencível. A notícia parecia surreal, um pesadelo do qual ela ansiava acordar.

“O que aconteceu?”, ela perguntou, a voz embargada pela emoção. Cada palavra era como vidro se quebrando em sua garganta.

“Um ataque. Rivais. Tentaram tomar o controle. Precisamos da sua ajuda para manter a Famiglia unida.” A voz de Salvatore estava tensa, quase quebrada. Wanessa nunca o tinha ouvido daquele jeito.

“Mas… por que eu?”, Wanessa questionou, a confusão a dominando. “Eu não tenho nada a ver com… com isso há anos. Estou fora, tio.” Ela havia construído uma vida, uma identidade longe daquela violência. Era dona de uma bem-sucedida galeria de arte em São Paulo, cercada por beleza e serenidade. A máfia era um capítulo enterrado em seu passado.

“Você é a herdeira, Wanessa. A única filha de Vittorio. A lei da Famiglia é clara. Você é a única que pode assumir o controle e evitar uma guerra.” A voz de Salvatore era firme, inexorável. Não havia espaço para negociação.

O silêncio se estendeu entre eles, pesado e opressor. Wanessa sabia que não tinha escolha. A Famiglia era mais do que um clã criminoso, era seu sangue, sua história, sua responsabilidade. Abandoná-los significaria condená-los à destruição.

“Eu vou”, ela finalmente disse, a voz fraca, quase inaudível. “Mas sob minhas condições.”

“Quais condições?”, Salvatore perguntou, a desconfiança evidente em seu tom.

“Eu assumo o controle, mas a Famiglia opera de forma diferente. Sem violência desnecessária. Sem inocentes feridos. E eu decido quando… e se… me retiro.” Wanessa sabia que estava pedindo o impossível. A Máfia e a moralidade eram conceitos antagônicos. Mas ela precisava tentar, precisava impor sua visão, sua esperança de um futuro menos sombrio.

Houve um longo silêncio do outro lado da linha. Wanessa prendeu a respiração, o coração acelerado no peito. Finalmente, Salvatore respondeu: “Concedido. Mas saiba, Wanessa, o mundo que você está prestes a herdar é cruel e implacável. Não espere piedade de ninguém.”

Wanessa desligou o telefone, o corpo tremendo. A promessa de seu pai de mantê-la longe daquele mundo havia se esvaído como fumaça. Ela era a nova Don, a herdeira de um império de sangue e segredos. E ela tinha apenas um objetivo: sobreviver.

Horas depois, o jatinho particular da Famiglia cortava os céus em direção ao Rio de Janeiro. Wanessa olhava pela janela, a paisagem urbana se estendendo aos seus pés como um labirinto de concreto e aço. A cidade, outrora um paraíso tropical, agora se afigurava como um campo de batalha.

Ao seu lado, sentava-se Alessandro, o consigliere da Famiglia, um homem de confiança de seu pai. Seus olhos escuros, frios e calculistas, a analisavam com intensidade. “Bem-vinda de volta, Donatella”, ele disse, a voz carregada de sarcasmo. “Espero que esteja pronta para o que a espera.”

Wanessa desviou o olhar, sentindo um arrepio percorrer sua espinha. Ela não estava pronta. Ninguém poderia estar pronto para herdar um legado de violência e traição. Mas ela não podia fraquejar. A vida de sua família dependia disso.

O avião pousou em um aeroporto particular nos arredores do Rio. Uma frota de carros pretos os aguardava na pista. Homens armados, de rostos impassíveis, formavam um cordão de segurança. Wanessa respirou fundo, tentando controlar o medo que a paralisava.

Enquanto entrava no carro, Alessandro lhe entregou um envelope. “Isto é para você”, ele disse, sem emoção. “Uma mensagem de boas-vindas de nossos rivais.”

Wanessa abriu o envelope com as mãos trêmulas. Dentro, havia uma foto. Uma foto dela, tirada momentos antes, no avião. E, rabiscada em vermelho sangue, uma única palavra: “Morta”.