Marcada pela Omertà
Chapter 1 — Marcada pela Omertà
O estrondo do tiro ecoou pela noite úmida de Copacabana, silenciando as risadas e a música alta que vinham do bar à beira-mar. Mariana, parada sob a marquise do Hotel Copacabana Palace, sentiu o corpo gelar, mesmo com o calor abafado do Rio de Janeiro impregnando o ar. Aquele som, ela conhecia bem demais.
Seu pai, Antônio “Toninho” Moreira, era o Don da Favela da Rocinha, um império construído sobre o medo e a lealdade. Mariana crescera naquele mundo, um labirinto de becos estreitos e olhares desconfiados, onde a lei era ditada por seu pai e a Omertà, a lei do silêncio, era sagrada.
Ela fechou os olhos por um instante, tentando afastar a imagem de Toninho, sempre imponente, sempre no controle. Mas as lembranças a assombravam: o cheiro de charuto cubano que impregnava suas roupas, o brilho frio das armas sobre a mesa, o peso da responsabilidade que ele depositara sobre seus ombros.
“Você é minha herdeira, Mariana,” ele dissera, poucos meses antes. “Quando eu partir, você assumirá o meu lugar. Lembre-se: a família vem sempre em primeiro lugar. A lealdade é tudo. E nunca, jamais, confie em ninguém completamente.”
Mariana abriu os olhos, o coração acelerado. O tiro. Teria sido ele? Um ataque surpresa? Uma traição?
Ela puxou o ar com força e atravessou a rua, ignorando os gritos e o pânico que se instalavam ao seu redor. A multidão se dispersava como um cardume assustado, deixando para trás apenas o cheiro de pólvora e o silêncio ensurdecedor.
Quando chegou à esquina, viu. O corpo de Toninho estendido no chão, a camisa branca manchada de vermelho. Um homem alto, de terno escuro, ajoelhado ao seu lado, sussurrando algo que ela não conseguia ouvir. O rosto do homem estava oculto pelas sombras.
A raiva, fria e cortante, invadiu Mariana. Seu pai. Assassinado em plena luz do dia, no coração da cidade. A Omertà havia sido quebrada. A guerra estava declarada.
Um dos capangas de Toninho, Zeca, a puxou pelo braço, tentando afastá-la. “Mariana, não! Você não pode ficar aqui! É perigoso!”
Ela se desvencilhou do aperto de Zeca com um movimento brusco. “Me solta, Zeca. Eu preciso vê-lo.”
Zeca hesitou, mas recuou, os olhos marejados. Ele sabia que não podia contrariar Mariana naquele momento. Ela era a herdeira. A Donatella, como alguns já começavam a chamá-la, em sussurros.
Mariana se aproximou do corpo de Toninho, o coração em pedaços. Aquele homem, temido por tantos, invencível aos olhos de todos, jazia ali, vulnerável e sem vida.
Ela se ajoelhou ao lado dele, ignorando o sangue que manchava suas mãos. Acariciou o rosto frio de Toninho, tentando, em vão, encontrar algum sinal de vida.
O homem de terno escuro se levantou e se virou para Mariana. Seus olhos eram da cor do oceano em um dia de tempestade. Cruéis e penetrantes.
“Sinto muito pela sua perda, Mariana,” ele disse, a voz grave e rouca. “Seu pai era… um homem interessante.”
Mariana o encarou, o ódio borbulhando em suas veias. “Quem é você?”
O homem sorriu, um sorriso frio que não alcançava seus olhos. “Meu nome é Matheo Villanova. E eu sou quem vai assumir os negócios do seu pai.”
Mariana sentiu o chão sumir sob seus pés. Matheo Villanova. Ela já ouvira falar dele. O herdeiro de uma família mafiosa italiana, recém-chegado ao Brasil, com ambições desmedidas e uma reputação implacável.
“Você?” Mariana cuspiu as palavras, o desprezo evidente em sua voz. “Você acha que vai tomar o lugar do meu pai? A Rocinha é minha, Matheo. E eu não vou entregá-la para um estrangeiro.”
Matheo se aproximou de Mariana, o rosto a centímetros do dela. “Você é jovem, Mariana. Inexperiente. Não sabe como esse mundo funciona. Precisa de proteção. E eu posso te oferecer isso.”
“Proteção?” Mariana riu, um riso amargo e irônico. “Eu não preciso da sua proteção. Eu sou a proteção. E eu vou fazer você se arrepender de ter pisado em meu território.”
Matheo a encarou por um longo momento, um brilho de desafio em seus olhos. “Veremos, Mariana. Veremos. Mas lembre-se: nesse jogo, só existe um vencedor. E eu não costumo perder.”
Ele se virou e caminhou em direção a um carro preto que o esperava na rua, deixando Mariana sozinha com o corpo de seu pai e a promessa de uma guerra iminente.
Mariana jurou, ali mesmo, sobre o corpo de Toninho, que vingaria a sua morte. Ela ia desmascarar Matheo Villanova e mostrar a ele quem realmente mandava na Rocinha. Mas, no fundo, ela sabia que aquela vingança teria um preço alto. Um preço que talvez ela não estivesse disposta a pagar.
Nos dias que se seguiram ao funeral de Toninho, Mariana se viu em meio a um turbilhão de intrigas, traições e alianças instáveis. Matheo Villanova, com sua influência e seus recursos, avançava sobre a Rocinha como uma praga, cooptando aliados e semeando o caos.
A pressão sobre Mariana aumentava a cada dia. Seus próprios capangas a questionavam, duvidando de sua capacidade de liderar. A Omertà, antes tão sólida, começava a ruir.
Em uma noite fria e chuvosa, Mariana recebeu uma mensagem anônima, um bilhete rabiscado em um pedaço de papel: “Encontre-me no Mirante do Leblon. Preciso te contar algo sobre a morte de seu pai.”
Mariana hesitou. Era uma armadilha? Uma emboscada? Mas a curiosidade, e a necessidade de saber a verdade, eram mais fortes do que o medo.
Ela marcou o encontro. Sozinha. Sabia que era arriscado, mas estava disposta a tudo para descobrir quem havia traído seu pai.
Ao chegar ao Mirante do Leblon, Mariana encontrou uma figura solitária, envolta em um casaco escuro, olhando para a imensidão do oceano. A pessoa se virou lentamente, revelando um rosto familiar, um rosto que Mariana nunca imaginaria ver ali.
Era Zeca, o capanga mais leal de seu pai, o homem que ela considerava como um irmão.
“Zeca?” Mariana perguntou, a voz trêmula. “O que você está fazendo aqui? O que você sabe sobre a morte do meu pai?”
Zeca respirou fundo, os olhos cheios de lágrimas. “Mariana… eu sinto muito. Eu… eu não queria que as coisas terminassem assim.”
Antes que Mariana pudesse responder, Zeca sacou uma arma e apontou para ela. “Fui eu, Mariana. Fui eu quem matou seu pai.”