Girassóis à Meia-Noite

Chapter 1 — O Silêncio Dourado dos Girassóis Mortos

O champanhe borbulhava, a espuma dançando como promessas não cumpridas, enquanto eu erguia a taça em direção ao homem que destruiu minha vida. Fernando Teixeira. O epiteto da perfeição paulistana: rico, belo, implacável. Naquela noite, ele celebrava a fusão de sua empresa com a de meu pai. Mal sabia ele que a noiva, vestida de branco imaculado, não trazia votos de amor, mas um plano de vingança meticulosamente orquestrado.

A festa acontecia no terraço do Hotel Unique, em São Paulo. A cidade estendia-se aos nossos pés, um mar de luzes indiferentes à tragédia que se desenrolava. O ar estava impregnado com o perfume doce das orquídeas e o aroma salgado da traição. Eu sorria, um sorriso ensaiado, perfeito, enquanto observava Fernando cumprimentar os convidados, alheio ao abismo que se abria sob seus pés.

Dez anos. Dez anos planejando cada detalhe. Dez anos vivendo com a dor lancinante da perda, nutrindo o ódio que me consumia. Meu pai. Um homem bom, um empresário honesto, esmagado pela ambição desmedida de Fernando. Aquele desgraçado o havia levado à falência, à humilhação pública, e, por fim, ao suicídio. A justiça falhou. A polícia arquivou o caso como “crise financeira”. Mas eu sabia a verdade. Eu sempre soube.

Meu nome é Bruna Moraes. E esta é a minha vingança.

Respirei fundo, sentindo o ar gélido da noite paulistana queimar meus pulmões. A orquestra atacou com uma valsa lenta, um convite hipócrita à felicidade. Fernando se aproximou, o sorriso branco contrastando com o brilho predatório em seus olhos. Ele era alto, elegante, com a postura de um predador confiante em sua presa. A beleza masculina que o tornava ainda mais desprezível.

"Bruna, você está radiante", ele disse, a voz aveludada carregada de um fingimento que me dava ânsias. "Feliz por essa união entre nossas famílias?"

"Extremamente feliz, Fernando", respondi, a voz melodiosa, o sorriso intocado. "É uma honra me tornar parte da sua família."

Ele estendeu a mão, convidando-me para a pista de dança. Aceitei, deslizando minha mão na dele. A pele dele era quente, firme. Aquele toque antes me causaria arrepios de desejo. Agora, só repulsa. Enquanto dançávamos, podia sentir os olhos de todos sobre nós. Os acionistas, os investidores, os amigos de Fernando. Todos testemunhas da minha encenação.

"Seu pai ficaria orgulhoso", Fernando murmurou, o tom falsamente nostálgico.

"Tenho certeza que sim", respondi, mantendo o sorriso. "Ele sempre admirou você, Fernando. Confiava em você."

A valsa terminou. Fernando me conduziu de volta à mesa, onde uma garrafa de champanhe nos esperava. Ele serviu duas taças, erguendo a sua em um brinde. "À nossa união", ele disse, o olhar fixo no meu.

"À nossa união", repeti, bebendo um gole. O líquido borbulhava na minha garganta, o gosto amargo da traição se misturando às notas frutadas da bebida. Coloquei a taça sobre a mesa, o som do cristal soando como um prenúncio.

"Tenho um presente para você, Fernando", falei, alcançando minha bolsa. "Algo que pertenceu ao meu pai."

Retirei uma pequena caixa de veludo. Abri-a, revelando um par de abotoaduras de ouro. Eram as preferidas do meu pai. Ele as usava em todas as ocasiões importantes.

"Que lindas, Bruna! Obrigado, de verdade. Mas qual o motivo especial para me dar um presente do seu pai?", Fernando perguntou, pegando uma das abotoaduras para examinar.

"Um presente sempre é especial, não é? Mas este tem um significado a mais. Veja, Fernando, essa pequena marca aqui... É uma homenagem a você."

Ele franziu a testa, aproximando a abotoadura dos olhos. Um filete de suor escorreu pela sua testa. O sorriso vacilou.

"Que marca é essa?", ele perguntou, a voz embargada.

Eu sorri. Um sorriso frio, cruel, verdadeiro.

"Cianeto, Fernando. Cianeto puro. Uma pequena dose. Suficiente para causar uma parada cardíaca indolor. Exatamente como aconteceu com meu pai."

Os olhos de Fernando se arregalaram. Ele cambaleou para trás, as mãos tremendo. O champanhe escorreu pela sua camisa, manchando o tecido branco com um tom macabro.

"Você… você está envenenada?", ele gaguejou, o rosto pálido.

"Não, Fernando. Eu não sou tola. A abotoadura foi banhada em cianeto. Um simples toque é o suficiente para transferir a dose letal. E você estava admirando ela há alguns segundos, não é?", eu disse, me aproximando dele. "Afinal, um brinde à nossa união, meu querido noivo."

Ele tentou gritar, mas a voz não saiu. Caiu de joelhos, as mãos agarradas ao peito. A música parou. O silêncio se abateu sobre o terraço. Todos olhavam para nós, atônitos. Eu me abaixei, segurando o rosto de Fernando entre minhas mãos.

"Adeus, Fernando", sussurrei, beijando-o na boca. Um beijo de morte. Um beijo de vingança.

Levantei-me, sorrindo para a multidão. A polícia já estava a caminho. Eu sabia que seria presa. Mas a vingança estava completa. Meu pai podia descansar em paz.

De repente, uma dor lancinante me atravessou o abdômen. Olhei para baixo e vi a lâmina. Uma faca, fincada profundamente em minhas entranhas. Meus olhos encontraram os de Sofia, a irmã mais nova de Fernando. Ela tremia, a faca ensanguentada na mão.

"Você destruiu minha família!", ela gritou, os olhos cheios de ódio.

Antes que eu pudesse reagir, Sofia puxou a faca e a fincou novamente, desta vez, certeira no meu coração. A escuridão me engoliu.

Enquanto eu caía, vi a expressão de triunfo no rosto de Sofia. E percebi… a vingança nunca termina. Apenas se transforma.

E, no meio do salão, a última pétala de girassol morta caiu, anunciando que o jogo apenas havia começado.