Segredos Sob o Luar de Paraty
Chapter 1 — O Silêncio das Orquídeas Roxas
O resultado positivo pairava no ar como uma sentença. Paloma encarava as duas listras azuis no pequeno teste, o banheiro do minúsculo apartamento em Copacabana girando ao seu redor. Grávida. Ela, Paloma Costa, vinte e dois anos, estudante de design gráfico e garçonete nas horas vagas, grávida de um homem que mal conhecia. Um homem que pertencia a outro mundo.
O flash de uma noite em Angra dos Reis invadiu sua mente. O iate luxuoso, a festa ensurdecedora, o champanhe borbulhante. E ele. Flávio Correia. O herdeiro bilionário, com olhos que pareciam prometer o universo e um sorriso capaz de derreter geleiras. Uma dança, um beijo roubado sob as estrelas, e a promessa sussurrada de que voltariam a se encontrar. Promessa quebrada no instante em que o sol nasceu e ela descobriu a verdade sobre quem ele era.
Duas semanas se passaram desde o atraso da menstruação. Paloma tentou ignorar, atribuir ao stress da faculdade e do trabalho. Mas a persistente nausea matinal e a crescente sensação de cansaço a forçaram a encarar a realidade. Agora, segurando o teste em suas mãos trêmulas, não havia mais como negar. A vida de Paloma Costa, com seus sonhos e planos meticulosamente traçados, estava prestes a mudar para sempre.
Ela precisava contar para alguém. Sua melhor amiga, Mariana, seria a escolha óbvia. Mas Paloma hesitou. Mariana, sempre tão prática e objetiva, provavelmente a bombardearia com perguntas difíceis e soluções racionais. Paloma não precisava de racionalidade no momento, precisava de um abraço, de alguém que entendesse o turbilhão de emoções que a consumia.
Com um suspiro, pegou o celular e discou o número de sua mãe, Dona Célia. A voz doce e preocupada do outro lado da linha a acalmou um pouco. “Mãe, preciso te ver. Posso ir aí hoje à noite?”
A casa de Dona Célia em Vila Isabel era um refúgio de paz em meio ao caos do Rio de Janeiro. O aroma de café fresco e bolo de fubá pairava no ar, um abraço invisível que sempre a reconfortava. Paloma se sentou à mesa da cozinha, observando a mãe cortar os pedaços de bolo com uma precisão quase cirúrgica.
“Está tudo bem, minha filha? Você parece abatida.” Dona Célia colocou um pedaço de bolo no prato de Paloma, seus olhos cheios de carinho.
Paloma respirou fundo, juntando coragem. “Mãe… eu preciso te contar uma coisa.” As palavras saíram como um sussurro, presas na garganta. Ela contou tudo, desde a festa em Angra até o resultado do teste. Cada detalhe, cada emoção, cada medo.
Dona Célia ouviu em silêncio, sem interromper. Quando Paloma terminou, seus olhos estavam marejados, mas seu rosto transmitia uma serenidade surpreendente. Ela se levantou, abraçou a filha com força e sussurrou em seu ouvido: “Você não está sozinha, meu amor. Eu estou aqui para você. Sempre.”
A noite se arrastou em conversas e planos. Dona Célia, com sua sabedoria e experiência de vida, ajudou Paloma a organizar seus pensamentos e a vislumbrar um futuro possível. Decidiram que o primeiro passo era contar para Flávio. Ele tinha o direito de saber.
Na manhã seguinte, Paloma se sentia um pouco mais forte, um pouco mais preparada. Pesquisou o contato de Flávio na internet, encontrando o número da empresa da família Correia. Respirou fundo e ligou.
A secretária, com sua voz fria e profissional, a informou que o Sr. Correia estava em uma reunião importante e não poderia atender. Paloma insistiu, explicando que era um assunto urgente. Após alguns minutos de espera tensa, a secretária voltou à linha. “O Sr. Correia a atenderá. Mas ele tem apenas cinco minutos.”
Paloma sentiu o coração acelerar. Cinco minutos para mudar sua vida para sempre. A linha conectou e a voz grave e familiar de Flávio ecoou do outro lado. “Quem fala?”
“Flávio, é a Paloma. Paloma Costa. Nós nos conhecemos em Angra dos Reis…”
Houve um silêncio prolongado. Paloma prendeu a respiração, esperando sua reação. Finalmente, ele respondeu, sua voz carregada de surpresa e… irritação? “Paloma? O que você quer?”
Ela reuniu toda a sua coragem e disse, com a voz firme apesar do tremor interno: “Flávio, eu estou grávida. Grávida de você.”
Outro silêncio. Desta vez, um silêncio gelado que fez Paloma se encolher. Então, a voz de Flávio, baixa e ameaçadora, cortou o silêncio como uma faca. “Você está mentindo. Isso é uma tentativa de golpe. Eu não vou cair nessa. Se você pensa que vai me extorquir, está muito enganada.”
Paloma sentiu as lágrimas queimarem em seus olhos. “Eu não estou mentindo, Flávio. Eu juro. Eu só queria que você soubesse…”
“Eu não quero saber de nada. Não me procure mais. Se você tentar me incomodar, eu vou usar todos os meus recursos para te processar. Entendeu?” E com um clique seco, a ligação foi encerrada. Paloma ficou ali, parada, com o celular na mão, as lágrimas escorrendo livremente pelo rosto. O mundo desabou ao seu redor. Mas a pior parte ainda estava por vir.
Naquele mesmo instante, em uma cobertura luxuosa no Leblon, Flávio Correia, com o celular ainda na mão, encarava a vista deslumbrante do mar. A notícia da gravidez de Paloma o havia pego de surpresa, mas ele rapidamente se recompôs. Uma mulher insignificante não arruinaria seus planos. Ele estava prestes a se casar com Heloísa Bittencourt, herdeira de um império ainda maior que o seu. A união de suas famílias consolidaria seu poder e futuro. Um bebê fora do casamento era inaceitável.
Ele pegou o telefone novamente e discou um número. “Preciso que você resolva um problema para mim. Uma certa Paloma Costa… ela está grávida. E alega que o filho é meu. Quero que você faça com que ela desapareça. Entendeu? Sem deixar rastros.”