Artesã no Palácio de Vidro
Chapter 1 — O Diamante Bruto no Palácio de Cristal
O toque áspero da argila sob meus dedos era o único consolo que eu conhecia. Em meio ao burburinho elegante da galeria de arte, cada pincelada me distanciava daquele mundo de aparências e fortunas que nunca me pertenceu. Eu, Juliana, a artesã de origem humilde, estava prestes a ter minha vida virada de cabeça para baixo por um bilionário implacável.
Meu atelier, um refúgio modesto no coração da Lapa, sempre fora meu santuário. Ali, entre esculturas inacabadas e o aroma forte da tinta a óleo, eu me sentia completa. Mas a notícia da exposição na Galeria Duarte, a mais prestigiada do Rio de Janeiro, soou como um prenúncio de tempestade. Era a chance de mostrar meu trabalho, mas também me colocava na mira de gente como Júlio Duarte, o herdeiro de um império, conhecido por sua frieza e ambição desmedida.
Na noite da vernissage, o salão reluzia com vestidos de grife e sorrisos calculados. Eu me sentia um peixe fora d’água, perdida entre a elite carioca. Avistei Júlio de longe, imponente em seu terno impecável, o olhar cortante varrendo o ambiente. Ele parecia entediado, alheio ao burburinho à sua volta. Quando seus olhos encontraram os meus, senti um arrepio percorrer minha espinha. Era como se ele pudesse ver através de mim, desvendando meus medos e inseguranças.
Ele se aproximou, o sorriso no canto dos lábios tão frio quanto o gelo. "Juliana Vargas, imagino? Seu talento é inegável, mas precisa de um toque... de refinamento," disse ele, a voz grave ecoando em meus ouvidos. Antes que eu pudesse responder, ele continuou: "Tenho uma proposta para você. Uma oportunidade única. Mas o preço..." Ele fez uma pausa, o olhar fixo no meu. "...o preço é a sua liberdade."
Uma semana depois, me vi assinando um contrato que mudaria minha vida para sempre. Júlio Duarte, o homem que personificava o poder e a riqueza, agora era meu... o quê, exatamente? Meu mentor? Meu algoz? Meu futuro? A única certeza que eu tinha era que havia acabado de entrar em um jogo perigoso, e as regras, ele quem ditava. Naquela noite, olhando a cidade iluminada da cobertura do Duarte, recebi uma mensagem anônima: "Fuja enquanto há tempo. Ele coleciona almas, não arte."