O Peso das Orquídeas Brancas
Chapter 1 — O Peso das Orquídeas Brancas
O buquê de orquídeas brancas tremia em minhas mãos, tão pálido quanto a minha esperança. A Basílica de Nossa Senhora da Penha, no Rio de Janeiro, erguia-se imponente, testemunha silenciosa do erro que eu estava prestes a cometer. Casar por contrato. Vender minha liberdade por uma promessa de segurança para minha família.
Respirei fundo, tentando acalmar o turbilhão de emoções que me consumia. O aroma doce e enjoativo das flores parecia me sufocar. Minha irmã, Lívia, apertou minha mão, seus olhos castanhos marejados. “Você não precisa fazer isso, Renata,” ela sussurrou, a voz embargada. “A gente dá um jeito. Sempre demos.”
Mas ela sabia que não era verdade. Desta vez, a situação era diferente. A dívida que meu pai, um homem de alma boa, mas péssimo administrador, havia contraído com Agripino Vargas era impagável. A única moeda de troca que nos restava era eu.
Agripino Vargas. Um nome que ecoava poder e crueldade nos becos de Santa Teresa, o bairro boêmio onde crescemos. Um homem frio, implacável, com uma reputação manchada por boatos de negócios escusos e desaparecimentos misteriosos. E, em algumas horas, meu futuro marido.
Olhei para o meu reflexo no espelho da sacristia. O vestido branco, emprestado por uma amiga da família, parecia zombar da minha falta de inocência. Eu não era uma noiva apaixonada, radiante de felicidade. Era uma prisioneira, vestida para o sacrifício.
“Está na hora,” a voz rouca de Seu Zé, o sacristão, interrompeu meus pensamentos. Ele era um velho amigo da família, um dos poucos que sabiam a verdade por trás desse casamento arranjado. Seus olhos, normalmente alegres, estavam carregados de tristeza.
Caminhei lentamente pelo corredor, sentindo o peso do olhar de todos sobre mim. A música nupcial soava como uma marcha fúnebre. No altar, Agripino Vargas esperava. Alto, imponente, com um terno impecável que não conseguia disfarçar a dureza de seus traços. Seus olhos negros, frios e calculistas, me analisaram de cima a baixo, como se eu fosse uma mercadoria.
Troquei olhares rápidos com minha mãe na primeira fileira. Seus olhos estavam vermelhos de tanto chorar. Ela tentou me transmitir um sorriso encorajador, mas falhou miseravelmente. Meu irmão, Yuri, estava ao seu lado, com o rosto crispado de raiva. Ele era o único que se recusava a aceitar esse acordo.
A cerimônia seguiu em um borrão de palavras e protocolos. O padre, um homem gordo e complacente, parecia apressado em terminar tudo logo. Quando chegou a hora dos votos, minha voz falhou. Engoli em seco, tentando encontrar forças para pronunciar as palavras que selariam meu destino.
Agripino Vargas, por outro lado, proferiu seus votos com uma frieza assustadora. Sua voz ecoou pela igreja, carregada de autoridade e posse. Senti um arrepio percorrer minha espinha. Era oficial. Eu era dele.
No momento do beijo, ele me puxou para perto, apertando minha cintura com força. Seus lábios eram frios e firmes, sem qualquer traço de ternura ou paixão. Era um beijo de dominação, uma declaração de poder. Forcei-me a suportar, sentindo as lágrimas queimarem meus olhos.
A festa foi um pesadelo. Cumprimentos falsos, sorrisos forçados, champanhe amargo. Tentei me manter distante de Agripino, mas ele parecia ter prazer em me exibir como um troféu. A cada vez que ele me tocava, sentia meu corpo se enrijecer.
Quando finalmente chegou a hora de partirmos, senti um alívio momentâneo. Pensei que o pior havia passado. Estava enganada. Agripino me levou para um helicóptero que nos esperava no terraço da igreja. A vista do Rio de Janeiro à noite era deslumbrante, mas eu não conseguia apreciar a beleza da cidade. Estava apavorada.
“Para onde estamos indo?” perguntei, a voz trêmula.
Agripino sorriu, um sorriso frio e predatório. “Para casa, Renata. Para a nossa nova casa.”
O helicóptero decolou, deixando para trás a Basílica da Penha e a vida que eu conhecia. Olhei para baixo, vendo as luzes da cidade se tornarem cada vez menores. Senti um nó na garganta. Tinha a sensação de que estava prestes a entrar em um abismo sem volta.
O voo durou cerca de uma hora. Pousemos em uma ilha particular, a pouca distância de Angra dos Reis. Uma mansão imponente, iluminada por holofotes, erguia-se no topo de um penhasco. Era luxuosa e isolada, um verdadeiro paraíso… ou uma prisão dourada.
Assim que pisei no chão, senti um arrepio. A brisa do mar trazia consigo um cheiro estranho, um odor metálico que me lembrou sangue. Agripino me conduziu pela mão até a entrada da mansão, onde fomos recebidos por um mordomo carrancudo.
“Seja bem-vinda, Sra. Vargas,” o mordomo disse, com uma reverência formal. “Seu quarto está pronto.”
Agripino me levou até um quarto enorme, decorado com móveis antigos e pesados. A cama de dossel era imponente, coberta por lençóis de seda vermelha. Um lustre de cristal iluminava o ambiente com uma luz fraca e sinistra.
“Espero que goste,” Agripino disse, com um sorriso que não chegava aos olhos. “Este será o seu lar a partir de agora.”
Senti um calafrio. “Onde vou dormir?” perguntei.
Agripino me encarou, com um olhar que me fez tremer da cabeça aos pés. “Na cama, Renata. Onde mais você dormiria?” Ele se aproximou, envolvendo minha cintura com seus braços fortes. “Afinal, somos casados agora. E temos um contrato a cumprir.”
De repente, a porta do quarto se abriu com um estrondo. Uma mulher alta e elegante, com cabelos negros e olhos verdes penetrantes, invadiu o quarto. Ela vestia um vestido de seda vermelho, que realçava suas curvas perigosas. Seu rosto estava crispado de raiva.
“Agripino,” ela gritou, com uma voz carregada de ódio. “O que significa isso? Quem é essa mulher?”
Agripino Vargas me soltou bruscamente, como se eu fosse uma boneca de pano. Seus olhos se estreitaram, revelando uma fúria contida. “Estela,” ele respondeu, com um tom ameaçador. “O que você está fazendo aqui?”
A tensão no ar era palpável. Senti meu coração acelerar. Quem era essa mulher? E o que ela tinha a ver com Agripino? Uma coisa era certa: eu havia acabado de entrar em um jogo muito mais perigoso do que imaginava.