Champanhe e Mentiras
Chapter 1 — O Segredo Escondido na Garrafa de Champanhe
O espelho refletia uma imagem que Eliane mal reconhecia. Vestido branco esvoaçante, maquiagem impecável, o buquê de orquídeas tremendo levemente em suas mãos… Era o dia do seu casamento. O dia que ela sonhou desde menina. Mas, por trás do sorriso forçado, o pânico a consumia. Ela sabia. Sabia que aquele conto de fadas estava prestes a desmoronar.
São Paulo fervilhava sob o sol de dezembro. O buffet de luxo, no coração do Itaim Bibi, era um mar de rostos conhecidos – a elite paulistana em peso, reunida para celebrar a união de Eliane Sampaio, herdeira de um dos maiores impérios de construção do país, e Rafael Gomes, o cobiçado cardiologista, filho de um renomado desembargador. Era o casamento do ano. A união perfeita entre duas famílias poderosas. Pelo menos, era o que todos pensavam.
Eliane respirou fundo, tentando controlar as mãos trêmulas. No altar, Rafael sorria, um sorriso que antes a fazia suspirar, mas que agora soava falso, quase cruel. Ela sabia a verdade. A verdade que enterrou no fundo do coração por cinco longos anos. A verdade que a assombrava a cada dia, a cada noite.
Cinco anos atrás, durante um intercâmbio em Florianópolis, Eliane se apaixonou perdidamente por um surfista misterioso, de olhos verdes e sorriso fácil. Um romance intenso, avassalador, que durou apenas um verão. Um verão que mudou sua vida para sempre. Ele desapareceu sem deixar rastros, apenas uma promessa vaga de que voltaria. E uma lembrança que crescia silenciosamente em seu ventre.
Ela tentou encontrá-lo, mas era como procurar uma agulha no palheiro. Sem nome completo, sem contato, apenas a vaga lembrança de um bar na praia onde ele costumava tocar violão. Desesperada, grávida e sozinha, Eliane voltou para São Paulo, enfrentando a fúria do pai e a decepção da mãe. A gravidez foi mantida em segredo, um escândalo abafado a peso de ouro. A criança foi entregue para adoção, um corte profundo na alma que nunca cicatrizou.
Agora, cinco anos depois, prestes a se casar com Rafael, o passado a alcançava como uma onda furiosa. Uma carta anônima, deixada em sua penteadeira naquela manhã, revelava tudo. Cada detalhe daquela noite em Florianópolis, cada beijo, cada promessa. E a pior parte: a foto de uma criança, um menino de olhos verdes idênticos aos do surfista. “Ele sabe a verdade. E está vindo te buscar”, dizia o bilhete.
O cerimonialista a chamou, sinalizando que era hora de entrar. Eliane fechou os olhos por um instante, sentindo o pânico se transformar em determinação. Ela não podia deixar que aquele segredo destruísse sua vida. Não podia permitir que Rafael descobrisse a verdade. E, acima de tudo, precisava proteger o filho que abandonou.
Com passos firmes, ela caminhou até o altar, o sorriso colado no rosto. Rafael a recebeu com um beijo casto na testa, a conduziu até o padre e a cerimônia começou. As palavras do padre ecoavam em sua mente, mas Eliane não ouvia nada. Seus olhos percorriam a multidão, procurando por um rosto familiar, por um sinal de que ele estava ali. Ele… O pai do seu filho.
A cerimônia seguiu seu curso, lenta e inexorável. O “sim” de Rafael soou confiante, seguro. Eliane hesitou por um instante, a garganta seca, o coração martelando no peito. Mas, no fim, a autopreservação venceu. Ela sussurrou um “sim” quase inaudível, selando seu destino. Ou era o que ela pensava.
Após a cerimônia, a festa começou. Champanhe corria solto, a música animada preenchia o salão e os convidados se divertiam. Eliane, no entanto, não conseguia relaxar. Ela sabia que a qualquer momento a bomba poderia explodir. A cada rosto desconhecido que se aproximava, seu coração dava um salto. A cada toque, um arrepio percorria sua espinha.
Enquanto Rafael era cumprimentado por amigos e familiares, Eliane se afastou discretamente, buscando um refúgio no jardim. Precisava de ar, de um momento de paz para colocar os pensamentos em ordem. Sentou-se em um banco de pedra, observando as luzes da cidade cintilarem no horizonte. De repente, ouviu um barulho atrás de si. Um galho quebrando. Um passo hesitante.
Virou-se bruscamente, o coração disparado. Um homem alto, de terno escuro, estava parado ali, observando-a com um olhar intenso. Seus olhos… Olhos verdes. Familiares. A brisa da noite agitava seus cabelos castanhos, revelando uma cicatriz discreta na têmpora. Uma cicatriz que Eliane conhecia bem.
O tempo parou. O som da música se dissipou. O mundo se resumiu àquele encontro. Eliane sentiu as pernas tremerem, a boca seca, a voz presa na garganta. Ele estava ali. Depois de cinco anos. Diante dela. Mais alto, mais maduro, mais… perigoso.
"Eliane…", ele sussurrou, a voz rouca, carregada de emoção. "Precisamos conversar."
Antes que Eliane pudesse responder, um grito agudo cortou o ar. Um grito de horror, vindo do salão de festas. Todos os olhos se voltaram para a cena. No centro do salão, em meio aos convidados em pânico, Rafael estava caído no chão, pálido e imóvel. Ao seu lado, uma garrafa de champanhe quebrada. E, no chão, um pequeno pedaço de papel, manchado de sangue. O mesmo papel da carta anônima que Eliane recebeu naquela manhã. Um bilhete com apenas uma palavra: “VINGANÇA”.