Grãos de Ouro e Desilusão

Chapter 1 — O Perfume Amargo do Café

O cheiro forte de café queimado invadiu meus pulmões, me arrancando do sono. Não era um aroma convidativo como nas manhãs de domingo, mas sim o prenúncio de mais um dia na cafeteria herdada da minha avó, um legado que, honestamente, eu não sabia se conseguiria honrar.

Meu nome é Sabrina Moreira, e a “Café com Aroma” era tudo que restava da minha família. As contas se acumulavam, os funcionários dependiam do meu salário, e o banco ameaçava executar a hipoteca. A ironia? Eu, Sabrina, a garota que sonhava em ser designer de moda, estava presa entre grãos de café e boletos atrasados.

Me levantei, vestindo o uniforme surrado – uma calça preta desbotada e a camisa com o logo da cafeteria quase apagado. No espelho, vi o reflexo de uma garota de 24 anos com olheiras profundas e o brilho nos olhos substituído por uma determinação amarga.

A cafeteria, localizada em um charmoso casarão no bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, já havia visto dias melhores. As paredes precisavam de uma nova pintura, as mesas de madeira estavam riscadas, e a máquina de café expressava sinais de cansaço. Mas o aroma, ah, o aroma do café fresco ainda atraía alguns clientes fiéis.

Seu Antônio, o aposentado que lia o jornal todas as manhãs, já estava sentado em sua mesa de sempre. Dona Maria, a professora de piano, saboreava um cappuccino enquanto corrigia provas. E Luiza, minha melhor amiga e barista, já estava a postos, com um sorriso no rosto capaz de iluminar o ambiente.

“Bom dia, Rafa! Dormiu bem?” Luiza perguntou, com sua habitual animação.

“Se dormir significa sonhar com planilhas e juros, então sim, dormi maravilhosamente bem,” respondi, tentando sorrir.

Luiza revirou os olhos. “Você precisa relaxar. Que tal um dia de folga? Eu cuido de tudo por aqui.”

“Impossível. Preciso resolver o problema da hipoteca. O banco me deu um ultimato,” suspirei, sentindo o peso da responsabilidade me esmagar.

A manhã passou em um ritmo frenético. Clientes chegavam e saíam, pedidos eram preparados, contas eram pagas. No meio da tarde, quando a cafeteria finalmente esvaziou, sentei-me em uma das mesas, exausta. Peguei meu celular e disquei o número do banco. A resposta foi a mesma de sempre: sem garantias adicionais, a hipoteca seria executada.

Desesperada, abri meu laptop e comecei a pesquisar opções de empréstimo. Foi quando vi o anúncio: “Leilão de Imóveis de Luxo no Rio de Janeiro”. Curiosa, cliquei no link. Mansões deslumbrantes, apartamentos com vista para o mar, coberturas com piscinas privativas… Um mundo completamente distante da minha realidade.

De repente, um nome chamou minha atenção: “Mansão Moreira, Santa Teresa”. Meu coração gelou. Ampliei a imagem e reconheci os portões de ferro e o jardim exuberante da antiga casa da minha família, a casa que meus pais perderam em um negócio fracassado anos atrás.

A descrição dizia: “Propriedade de propriedade do renomado empresário André Ferreira.”

Um arrepio percorreu minha espinha. André Ferreira. O nome era sinônimo de poder, riqueza e… frieza. Ele era conhecido por seus negócios implacáveis e sua reputação de não ter escrúpulos.

Uma ideia ousada, quase insana, começou a tomar forma em minha mente. Eu precisava falar com André Ferreira. Precisava convencê-lo a me vender a mansão. Era a única maneira de salvar a cafeteria e resgatar o legado da minha família. Mas como convencer um homem como ele a fazer algo por mim, uma simples dona de cafeteria falida?

Respirei fundo e digitei um e-mail para o escritório de André Ferreira, solicitando uma reunião. Sabia que minhas chances eram mínimas, mas eu precisava tentar. Era a minha última esperança.

Na manhã seguinte, recebi uma resposta. André Ferreira concordava em me receber. O encontro estava marcado para dali a dois dias, em seu escritório no centro do Rio de Janeiro. Um frio na barriga me invadiu. Eu estava prestes a entrar na toca do leão.

Ao sair da cafeteria naquela noite, vi um carro preto parado do outro lado da rua. Um homem alto e elegante saiu do veículo e caminhou em minha direção. Seu rosto estava oculto pelas sombras, mas a aura de poder que emanava dele era inegável. Ele parou em frente à cafeteria e sorriu. “Sabrina Moreira? André Ferreira manda lembranças.”